Fingi ser submisso à minha esposa durante sete anos. Tudo era atuação. Mas agora, finalmente, chegara o momento. Era o dia em que o ex-amante de Carla, Manuel Torres, voltou.

Ela organizou um espetáculo de fogos de artifício à beira do rio para recebê-lo. O clima estava perfeito, e eles abraçaram-se e beijaram-se diante de toda a gente. Eu fiquei em silêncio, apenas a observar. No caminho para a festa de boas-vindas, Carla olhou para mim, nervosa:
— Faz tanto tempo que não via o Manuel.
Fiquei muito emocionada e beijei-o. Irritado? Não. Forcei um sorriso e respondi com humildade:
— Claro que não.
Enquanto estiveres feliz, aceito qualquer coisa. Ela lançou-me um olhar de leve irritação e desviou os olhos. Manuel olhou-me pelo retrovisor, a zombar:
— Carla, este tipo é um inútil. Humilham-no assim e ele não diz uma palavra.
Não é suficiente para ti? Devias divorciar-te e casar comigo. Apertei o volante com força. Os olhos de Carla brilharam, como se estivesse emocionada.
Mas ficou em silêncio. Na festa, os amigos de Carla gritavam entusiasmados com a chegada de Manuel. Quando se voltaram para mim, os sorrisos transformaram-se em zombarias. Alguém se aproximou:
— Todos sabem que a Carla esteve apaixonada pelo Manuel durante dez anos inteiros.
Se não fosse pela partida repentina dele, ela não teria ficado tão frágil para se apaixonar por um perdedor que se aproveitou da situação. Agora que o verdadeiro amor dela está de volta, está na hora de alguns recuarem. Não achas? Graças a Carla, ninguém na festa me respeitava.
Mas fingi não perceber. Observei-a no meio da pista de dança. Manuel tomou um gole de vinho, puxou-a para si e beijou-a apaixonadamente. Ela tentou corresponder, mas percebeu que a taça estava vazia.
Virou-se para mim:
— Javier, enche a minha taça. Não estás a ver que está vazia? Corri para servir mais vinho, mas ela empurrou-me com desprezo e voltou a beijar Manuel. De repente, Manuel agarrou-me o braço, impedindo-me de sair.
Olhou-me de cima a baixo com desdém:
— Estou muito curioso. Como conseguiste enganar uma mulher tão nobre como a Carla para se casar contigo? Todos dizem que és um perdedor sem dignidade. Mostra-me como lambes as botas dela.
Inclinou a taça e deixou cair algumas gotas sobre os sapatos de couro. Depois, com um chute cruel no meu joelho, obrigou-me a ajoelhar. Rangi os dentes e limpei os sapatos de Manuel com a manga, enquanto as gargalhadas preenchiam o ar. Vislumbrei o olhar de Carla: cheio de desprezo.
Ela caminhou até mim e deu-me um chute forte:
— És um miserável patético. Afasta-te de mim. Fez uma pausa e acrescentou:
— Vou ficar com o Manuel esta noite. Entendi imediatamente.
Em silêncio, reservei um quarto de hotel para eles. Permaneci imóvel. O vestido de Carla estava meio descomposto, e quando ela ergueu o olhar e me viu, mostrou-se irritada:
— Porque ainda estás aqui? Não percebes o quão repugnante és?
Permaneci em silêncio por muito tempo. Quando ela estava prestes a perder a paciência, murmurei, hesitante:
— Hoje fiz tudo certo, não foi? Posso pedir-te algo? Por favor, não te divorcies de mim.
A expressão dela mudou, transformando-se num sorriso de escárnio:
— Tu, sem um pingo de dignidade, um inútil, como te atreves a querer ficar ao meu lado? Porque não deveria divorciar-me de ti? Javier, ouve bem: vou divorciar-me. O corredor estava mal iluminado.
Carla pôde ver as lágrimas a escorrerem pelo meu rosto. Mas não viu o meu sorriso contido. Sem dizer uma palavra, pegou numa sandália do chão e atirou-ma ao rosto. A porta fechou-se com força.
Sozinho no vazio, finalmente permiti-me sorrir. Divórcio? Por mim, não havia problema. Todos estavam convencidos de que eu estava apaixonado por Carla.
Achavam que eu era um capacho sem solução. Carla aproveitava essa suposta devoção para me humilhar, descontando em mim todas as frustrações. Mas o que ela nunca imaginou é que a minha relação com ela durante aqueles sete anos não era por amor. Era por contrato.
Naquela noite, sentado no carro com Letícia Martinz, a mãe de Carla, ela suspirou profundamente:
— Javier, sei que estes sete anos não foram fáceis para ti. Agora que o contrato chegou ao fim, encontra uma maneira de terminar esta relação e recuperar a tua liberdade. Apenas certifica-te de que a Carla nunca descubra a verdade. Na altura, Carla estava devastada depois de ser abandonada por Manuel.
Tinha caído num estado crítico, chegando a contemplar tirar a própria vida. Desesperada, Letícia decidiu contratar alguém que pudesse ajudá-la a superar a dor, estabilizar a vida e retomar a carreira e os estudos. Foi aí que eu entrei: recém-formado numa universidade prestigiada, mas afundado em dívidas e sem rumo. A oferta era tentadora: um contrato de sete anos com um salário anual de cinco milhões de dólares.
Aceitei sem pensar muito. A minha tarefa era interpretar o papel de um marido devoto. E agora que o prazo tinha chegado ao fim, finalmente podia deixar de atuar. Ao chegar a casa naquela noite, encontrei um pacote à porta.
Vinha de Eliad, uma região remota. Dentro, esculturas de madeira finamente talhadas, embaladas em espuma protetora. Não pude evitar sorrir ao ver aquilo. Um sorriso genuíno, uma raridade depois de anos a fingir.
Naquela noite, dormi profundamente, algo que não fazia há muito tempo. Na manhã seguinte, recebi uma mensagem de Carla, algo que não acontecia há anos. Era fria e direta:
— Traz a tua identidade. Vemo-nos no cartório.
Suspirei aliviado e não consegui evitar rir durante todo o trajeto. Mas quando a vi, rapidamente mudei a expressão para uma cheia de lágrimas. Comecei a implorar para que ela não se divorciasse de mim, como sempre. Carla revirou os olhos e exigiu que eu me desculpasse publicamente.
Sem pensar, fiz isso imediatamente. Mas, para minha surpresa, isso só a enfureceu ainda mais. Com um tapa que ecoou, ela olhou-me fixamente e sussurrou entre os dentes:
— És mesmo tão patético, Javier. Não tens um mínimo de dignidade?
Quanto mais eu me submetia aos caprichos dela, mais ela parecia desprezar-me. No entanto, quando eu a ignorava, era ela quem voltava a implorar. Era difícil determinar quem era realmente o mais patético naquela relação. Para garantir que o divórcio ocorresse sem complicações, decidi humilhar-me mais do que jamais havia feito.
Carla, com um olhar gelado, disse:
— Se queres que continuemos casados, jura. Jura que nunca vais intrometer-te entre mim e o Manuel. Que vais deixar-nos fazer o que quisermos. Tu não és nada além da minha mascote.
Sem hesitar, jurei imediatamente, com os olhos cheios de uma suposta sinceridade, a tremer enquanto falava. À medida que mais pessoas se reuniam para assistir ao espetáculo, a expressão de Carla ficava ainda mais fechada. Estava claro que o meu nível de submissão a afetava profundamente. Eu não conseguia deixar de sorrir ao pensar que o divórcio estava mais próximo do que nunca.
Finalmente, ela disse com desdém:
— Está bem. Não nos vamos divorciar. Vamos embora. O que ela achava ser um gesto de bondade ressoou nos meus ouvidos como um trovão devastador.
Fiquei parado, a olhar para ela atónito, a tentar entender como tudo aquilo tinha chegado tão longe. Cheguei a casa naquela noite sem conseguir parar de pensar no que tinha acontecido. Carla tinha-se recusado a assinar os papéis do divórcio, mesmo depois de tudo o que eu fizera para merecer a humilhação mais absoluta. A minha submissão, que deveria tê-la enojado ao ponto de me libertar, tinha surtido o efeito oposto.
Subi as escadas lentamente. Mas por dentro, um fogo ardia. Algo me dizia que era hora de encerrar tudo de uma vez por todas. Naquela noite, sentei-me no escritório que raramente usava.
Tirei do fundo de uma gaveta um envelope que Letícia me tinha entregue no início de tudo. Dentro estavam os documentos originais do contrato que me vinculavam a Carla por sete longos anos. O papel ainda tinha o perfume que Letícia usava naquela época. — Sete anos — sussurrei para mim mesmo.
— Sete anos a ser o palhaço particular de uma mulher que nunca soube a verdade, que me tratava como uma peça de mobília descartável. O contrato estipulava claramente que, ao fim do período acordado, eu estaria livre para seguir a minha vida. E Letícia deveria garantir que Carla não interferisse. Mas o que ninguém sabia, nem mesmo Letícia, era que eu tinha guardado provas suficientes para virar o jogo caso algo desse errado.
Mensagens, gravações de conversas, registos financeiros. Tudo o que podia destruir Carla e a sua mãe num piscar de olhos. Eu era o homem submisso, sim. Mas também era o homem paciente.
E paciência era algo que Carla nunca teve. No dia seguinte, Carla parecia mais fria do que nunca. Quando entrei na cozinha, ela estava sentada à mesa com uma chávena de café, os olhos fixos no telemóvel. Nem se dignou a olhar para mim quando murmurei um bom dia.
Resolvi quebrar o silêncio:
— Carla, precisamos de conversar. Ela finalmente levantou os olhos, mas a expressão era de puro tédio:
— O que foi agora? Vais chorar de novo? Já te disse que não nos vamos divorciar.
Poupa-me o teu discurso patético. Respirei fundo, tentando manter a calma por fora. Ainda era o mesmo Javier que ela estava acostumada a manipular. Mas por dentro, algo tinha mudado.
— Não é sobre o divórcio. É sobre nós. Sobre o que estamos a fazer com as nossas vidas. Ela revirou os olhos e riu com desdém:
— As nossas vidas?
Javier, tu não tens vida. És um parasita a viver às minhas custas. O que poderias ter a dizer sobre isso? Engoli a provocação.
Era exatamente o que ela esperava. Em vez de responder, dei um leve sorriso e saí de casa. Carla achava que eu estava indo trabalhar. A verdade é que tinha outros planos.
Liguei para Letícia. Ela atendeu ao segundo toque. — Javier? O que houve?
— perguntou, preocupada. — O que houve? — retorqui, sarcástico. — A sua filha recusou-se a dar-me o divórcio.
Letícia, a senhora devia ter garantido que isso não acontecesse. Agora temos um problema. Houve um momento de silêncio antes de ela suspirar:
— Vou conversar com ela. Não se preocupe.
Mas eu sabia que Letícia nunca teve controlo sobre Carla. Era exatamente por isso que me tinha contratado. Resolvi acelerar as coisas por conta própria. Fui diretamente a um advogado, levando o contrato e todos os documentos comprometedores que tinha acumulado.
O plano era simples: se Carla não me deixasse em paz, eu destruí-la-ia. E não apenas a ela. Letícia também pagaria o preço. Quando voltei para casa, Carla estava no sofá a beber vinho com Manuel.
Riam alto, como se fossem donos do mundo. Assim que entrei, Manuel fez questão de me provocar:
— Olha quem chegou. O nosso pequeno cão de guarda. Não tens vergonha de ser tão patético, Javier?
Carla gargalhou e tomou um longo gole de vinho:
— Deixa-o, Manuel. O Javier sabe o lugar dele. Ele só está aqui porque eu permito. Aquela foi a última gota.
Mantive a calma, mas por dentro sabia que aquele seria o último dia em que suportaria aquelas humilhações. Subi para o quarto, peguei numa mala e comecei a arrumar as minhas coisas. Carla apareceu na porta minutos depois, com uma expressão curiosa:
— O que estás a fazer? — Vou embora — respondi calmamente.
Ela riu, incrédula:
— Embora? Não sejas ridículo. Tu nunca terias coragem. Fechei a mala e virei-me para a encarar.
Pela primeira vez em sete anos, olhei nos olhos dela sem desviar:
— Tens razão, Carla. Eu nunca teria coragem. Até agora. Mas sabe de uma coisa: a tua vida nunca mais será a mesma.
Ela tentou dizer algo, mas antes que pudesse, passei por ela e saí de casa. Era hora de colocar o meu plano em ação. Aquele era apenas o começo. Ao sair pela porta, senti um peso enorme a ser retirado dos meus ombros.
Carla ficou a observar-me enquanto me afastava, incrédula:
— Vais mesmo sair assim? Javier, sê razoável. Tu não tens para onde ir. Vais voltar a rastejar, como sempre.
Não respondi. Apenas continuei a andar até ao carro, carreguei a mala, subi e liguei o motor. Fui embora. Por dentro, mal conseguia conter o sorriso.
Carla achava que eu era o homem quebrado que ela humilhava há anos. Mas mal sabia ela que eu tinha esperado pacientemente por aquele momento. Tudo estava finalmente a encaixar-se. Nas semanas seguintes, Carla tentou provocar-me.
Mandava mensagens esporádicas, recheadas de ironia e desprezo:
— Ainda estás vivo? Não achas que já é hora de voltar para casa e pedir desculpas? O Manuel e eu estamos ótimos sem ti, sabias? Ignorei todas.
Ela não fazia ideia de que a minha vida já era completamente diferente. Mudei-me para uma casa nova, bem maior do que a que Carla acreditava ser dela. Com os milhões que Letícia me pagou ao longo dos sete anos, investi sabiamente: fundos imobiliários, ações e até uma pequena empresa que agora prosperava. Enquanto Carla achava que eu era apenas um capacho sem ambições, a verdade era que eu tinha acumulado uma fortuna que a deixaria de boca aberta.
Um mês depois, decidi que era hora de colocar o plano em ação. Carla e Manuel tinham organizado um jantar para amigos na casa onde eu morei durante sete anos. Fiz questão de aparecer sem ser convidado. Quando abri a porta e entrei, Carla pareceu incrédula.
Estava a rir de algo que Manuel tinha dito, mas o sorriso desapareceu assim que me viu:
— O que estás a fazer aqui? — perguntou, visivelmente desconfortável. — Resolvi passar para conversar convosco. A minha voz era calma, mas carregava um tom que imediatamente chamou a atenção dos presentes.
Manuel olhou-me com desdém, como sempre:
— Escuta, idiota. Ninguém te quer aqui. A Carla e eu estamos muito bem sem ti. Eu ri, balançando a cabeça:
— Oh, eu sei que estão bem.
Ou pelo menos acham que estão. Tirei um envelope do bolso e coloquei-o na mesa:
— Mas talvez queiram dar uma olhada nisto antes de continuarem. Carla pegou no envelope com irritação. Ao ler o conteúdo, a expressão dela mudou para puro pânico.
Manuel inclinou-se para ler por cima do ombro dela, e logo a sua expressão de superioridade também desapareceu. — O que é isto? — perguntou, confuso. — É simples — expliquei, cruzando os braços.
— A casa onde vocês estão sentados não é dela. Nunca foi. Pertence à minha empresa. E ah, Carla, lembras-te dos sete anos em que me trataste como lixo?
Bem, a tua mãe foi muito generosa em me pagar milhões para cuidar de ti. Investi cada centavo. E veja só: agora sou milionário. Tu, por outro lado, não tens absolutamente nada.
O silêncio na sala era ensurdecedor. Carla levantou-se, a expressão dela uma mistura de raiva e incredulidade:
— Isto não pode ser verdade. A minha mãe nunca faria isso comigo! — gritou.
Eu ri novamente:
— A tua mãe fez o que era preciso para impedir que destruísses a tua própria vida. E agora ela não pode fazer nada, porque se tentar, eu tenho provas suficientes para acabar com ela e contigo. Manuel levantou-se, visivelmente desconfortável:
— Espera aí. Queres dizer que tudo isto — apontou para a casa — não é dela?
Nada disto é? E eu não teria direito a nada? Carla tentou argumentar:
— Manuel, não sejas ridículo. Isto não muda nada.
Ainda temos um ao outro. Ele riu amargamente, pegando na jaqueta:
— Eu não quero estar com alguém que não tem absolutamente nada e que ainda depende de mentiras para se manter. Boa sorte com a tua vida, Carla. Estou fora.
Ela tentou detê-lo, mas Manuel saiu sem olhar para trás. O som da porta a bater ecoou pela sala, deixando Carla de pé, sozinha e sem saber o que fazer. — Não podes fazer isto comigo! — gritou para mim, mas a voz agora parecia desesperada.
— Já fiz. E acrescentei:
— E a propósito, estou a comprar esta casa à tua mãe. Portanto, se quiseres continuar a morar aqui, vais ter de aceitar uma nova regra: todas as manhãs, vais ter de beijar os meus pés. Carla ficou pálida, incapaz de responder.
Saí da casa sem olhar para trás, deixando-a a digerir o que tinha acabado de acontecer. Nos dias seguintes, Carla tentou buscar ajuda junto de Letícia. Foi a casa da mãe, gritando e exigindo explicações. Letícia, no entanto, estava cansada da filha e dos seus dramas:
— Eu fiz o que pude por ti, Carla.
Perdeste tudo. A culpa é tua. Não contes comigo para consertar os teus erros. Sem mãe, sem Manuel e sem dinheiro, Carla finalmente entendeu o que era ser humilhada.
Hoje, ela vive de favor na casa que comprei, cumprindo todas as condições que impus. Todas as manhãs, ajoelha-se, beija-me os pés e limpa cada centímetro da casa. O que antes era o símbolo da arrogância dela agora é o palco da sua queda.
A cada dia que passa, Carla experimenta o que é ser desprezada enquanto eu saboreio cada segundo da minha liberdade.


