Eu estava à porta da casa da minha sogra com um bolo de laranja nas mãos, pronta para pedir desculpa pela gritaria da véspera. Antes de tocar à campainha, ouvi a voz dela lá dentro. Alta, nítida, completamente diferente daquela voz arrastada e confusa que ela usava connosco. Colei o ouvido à porta, prendi a respiração.

“Está a funcionar perfeitamente, minha filha. Aquela desgraçada já está a surtar. O Marcelo ficou horrorizado com a falta de empatia dela. ”
O meu estômago despencou.
O bolo quase me caiu das mãos. “Pode ficar tranquila, Renatinha. É só teres um pouco de paciência. Daqui a pouco o Marcelo leva-me para morar com eles.
Conheço o meu filho, ele jamais vai deixar a mãe senil sozinha. E quando eu me mudar para lá? Ah, minha filha, vou transformar a vida daquela mulher num inferno. Quando ela surtar de vez e o meu filho a largar, apareces tu, toda linda e carinhosa, como uma coincidência do destino.
”
Fechei os olhos. Então era tudo farsa. O choro, as perdas de memória, o caderno da minha mãe. Tudo inventado, friamente arquitetado para me destruir.
Uma ideia começou a formar-se na minha cabeça. A dona Cícera queria fazer-se de demente? Eu ia ajudá-la a concluir o plano muito mais depressa do que ela imaginava. Mas para perceber como cheguei àquela porta, preciso de recuar um pouco.
Chamo-me Márcia, tenho 36 anos, sou designer gráfica e trabalho em casa. Sou casada com o Marcelo, um ano mais velho que eu — um homem doce, carinhoso e trabalhador, com um único ponto fraco: a mãe dele, dona Cícera, uma narcisista de 65 anos que nunca aceitou que o filho tivesse vida própria. Desde o primeiro dia, deixou claro que eu não era suficiente para o precioso filho dela. No início, eram alfinetadas disfarçadas: “O Marcelo sempre preferiu mulheres loiras”, “o Marcelo gosta de mulheres mais magrinhas”.
Depois passou às comparações com a Renata, a ex-namorada do Marcelo, que ela idolatrava. “A Renata sabia fazer bolo. A Renata fazia um estrogonofe melhor que o teu. O cabelo da Renata era maravilhoso.
” Parecia que tinha um altar para a Renata. O Marcelo defendia-me, dizia que a mãe precisava de tempo. Mas tempo não era o problema. Casámos, e a situação piorou.
Ela ficou com uma chave de emergência da nossa casa e passou a entrar quando lhe apetecia, sem tocar à campainha. Encontrava-me no sofá, de portátil no colo, e disparava: “Estás aí na folga, é? Enquanto o meu filho se mata no trabalho para te sustentar, tu devias estar a arrumar a casa. ” Eu explicava que estava a trabalhar, que ele não me sustentava.
Não entrava na cabeça dela que alguém trabalhasse de casa por um computador. Pedia ao Marcelo para falar com ela. Ele falava, ela acenava, e na semana seguinte lá estava ela outra vez. Quando completámos um ano de casamento e começámos a falar de ter filhos, as coisas pioraram de vez.
Num jantar, ela olhou para mim e perguntou: “Como é mesmo o teu nome, querida? ” Ficámos paralisados. “Mãe, estás bem? ” Ela disse que era cansaço, um branco.
Uma semana depois, apareceu à nossa porta às dez da noite, de roupão e pantufas, a chorar que o pai do Marcelo não tinha voltado do trabalho. O pai morrera há sete anos. Quando o Marcelo lhe disse isso, ela desabou num choro desesperado, como se estivesse a receber a notícia pela primeira vez. Sugeri um médico.
Ela olhou para mim, perdida, e respondeu: “Não preciso de médico, Renata. ”
O Marcelo foi abaixo. O pai morrera de complicações de Alzheimer, e a simples ideia de perder a mãe para a mesma doença deixou-o em pânico. Passou a ir a casa dela todos os dias, levava compras, pagava as contas.
Eu apoiei-o. E como ficava em casa, tornei-me a motorista particular dela — porque, claro, eu era a desocupada. O mais irónico: a memória dela funcionava lindamente quando se tratava do salão, do jogo de cartas, da novela. Só dava bug perto de mim.
O golpe final foi duas semanas depois. A minha mãe morrera e deixara-me um caderno de receitas escrito à mão, páginas amareladas. O meu maior tesouro. Num dia em que a dona Cícera vagueava lá por casa, fui à casa de banho.
Quando saí, ouvi folhas a rasgar. Ela estava à mesa, com o caderno da minha mãe entre as mãos, a rasgá-lo aos pedaços. Metade das receitas já estava em papéis picados. “O que está a fazer?
”, gritei, arrancando-lhe o caderno. Ela respondeu com toda a naturalidade: “Ué, estou a deitar fora as receitas de que não gosto do meu livro. ”
Quando comecei a gritar, ela desatou a chorar, fez um escândalo, espalhou os pedaços pelo chão. “Porque estás a gritar comigo, Renata?
” O Marcelo chegou nesse momento, viu a mãe a chorar e pediu-me empatia: “Ela não sabe o que está a fazer. ” Eu não respondi. Apanhei os pedaços da letra da minha mãe e tranquei-me no quarto. Quando as lágrimas secaram, veio a culpa.
Eu tinha gritado com uma doente. Desci, pedi desculpa ao Marcelo, contei-lhe o valor daquele caderno. Ele abraçou-me. Naquela noite, decidi ir a casa dela na manhã seguinte, pedir perdão pessoalmente e selar a paz.
Foi por isso que estava naquela porta, com o bolo. E foi por isso que, com os ouvidos ainda a arder com as palavras dela, respirei fundo, endireitei a postura e toquei à campainha. As gargalhadas pararam na hora. Ouvi passos apressados.
A porta abriu-se e lá estava ela, curvada, frágil, com aquele olhar vazio. “Bom dia, dona Cícera. Trouxe-lhe um bolo de laranja para lhe pedir desculpa pelo meu surto de ontem. ” Ela pestanejou, forçando a confusão: “Ah, oi, Renata, que gentileza.
” Sorri, um sorriso tão largo e cínico que ela devia ter desconfiado. “Não, dona Cícera. Sou a Márcia. A Renata é a ex-namorada que traiu o seu filho.
” Ela ficou paralisada, engoliu em seco, mas teve de manter o personagem. Pedi-lhe café. Enquanto ela ia para a cozinha, fiquei sozinha na sala. Vi o cartão de crédito dela na mesa de centro.
Enfiei-o no bolso. Depois a chave da porta, que estava na fechadura, foi atrás do cartão. Gritei que o chefe me tinha convocado para uma reunião, bati a porta e fui embora. Naquela noite, o Marcelo chegou exausto.
A mãe ligara histérica: a porta estava destrancada, a chave tinha sumido, o cartão também — e ela jurava que eu tinha sido. Fiz a minha melhor cara de espanto: “Mas porquê eu? Fui lá de manhã, tomámos café, comemos bolo e fui embora. Ela própria me abriu a porta.
” Ele suspirou, abraçou-me: “Sei, amor. Foi o que lhe disse. Ela está a delirar. Ainda bem que a consulta é para a semana.
”
Na manhã da consulta, a dona Cícera entrou no consultório do psiquiatra geriátrico a atuar como nunca. “Em que ano estamos? ” “Que pergunta, doutor. Estamos em 2010.
” “Reconhece estas duas pessoas? ” Apontou para o filho: “Este é o meu filho Marcelo. ” Depois apontou para mim: “E esta é a minha nora querida, a Renata. ” O médico anotou.
O Marcelo contou tudo: o roupão, o caderno rasgado, as chaves desaparecidas. Então entrei em cena. Forcei uma lágrima: “Doutor, não contei ao Marcelo para não o chatear, mas na última vez que estive em casa dela, vi um par de sapatos dentro do frigorífico. Cascas de fruta podres nas gavetas.
E quando tentei falar com ela sobre isso, deu-me um sopapo na cara. ”
Ela levantou-se num pulo, vermelha de ódio: “O quê? Tu nem entraste na minha cozinha! Mentirosa!
” Encolhi-me atrás do Marcelo: “Talvez a senhora não se lembre de me ter batido. ” Foi o suficiente. Ela avançou para mim, aos berros, tentou agarrar-me o pescoço. A enfermeira aplicou-lhe um sedativo ali mesmo.
O médico foi taxativo: demência avançada, surtos psicóticos violentos, risco para ela e para todos à volta. “Não recomendo que viva com a família. Precisa de contenção 24 horas. ” O Marcelo estava destroçado.
Eu apertei-lhe a mão, com a voz cheia de sacrifício: “Se quiseres, eu fico em casa com ela. ” Ele recusou: “Não vou pôr a tua integridade física em risco. ” O médico indicou uma clínica especializada. Quando ela ouviu a palavra “clínica”, o pânico derrubou o efeito do sedativo.
“Não, Marcelo! Eu não estou doente! Foi tudo uma farsa! Eu inventei a doença!
Juro por Deus! ” Deu-me um pontapé na canela. Berrou que eu tinha armado tudo para a trancar num asilo. Vinda de uma velha sedada que acabara de chutar a nora, a verdade soou exatamente como delírio.
O Marcelo fechou os olhos, deixou uma lágrima correr e assinou a internação. Na clínica, enquanto ele tratava da papelada na recepção, fiquei com a bolsa dela. O telemóvel vibrou. Abri a bolsa, puxei o aparelho.
Sem senha. Mensagem de “Renatinha”: “Então, como foi no médico? Deu tudo certo? ” O coração disparou.
Rolei a conversa para cima. Começava há três meses: a Renata esbarrou com o Marcelo na rua, sentia falta dele, sentia falta da dona Cícera. E a resposta da minha sogra: “Ele está casado com aquela chata da Márcia. Eu odeio aquela mulher.
Meu sonho era ter-te como nora. Não quero netos com cabelo pixaim. Temos de separar os dois. ”
Foi por causa do meu cabelo.
Por causa da minha cor de pele. Pelo tom daquelas palavras, tudo o que era culpa dentro de mim desapareceu naquele segundo. Bloqueei a Renata, apaguei a conversa inteira e devolvi o telemóvel à bolsa. Quando entrámos no quarto, a dona Cícera agarrou a mão do Marcelo: “Filho, confessa!
Eu e a Renata planejámos tudo para te separar da Márcia! Mas eu não estou doente! Pega no meu telemóvel e olha o WhatsApp, vais ver que estou a dizer a verdade! ” Entreguei-lhe o telemóvel com a expressão mais inocente do mundo.
Ele procurou. Não havia nada. “Mãe, vai ficar bem aqui. Eles cuidam de ti.
” Ela percebeu o que eu tinha feito. O pânico transformou-se em fúria: “Foi ela! Ela apagou tudo! ” As enfermeiras entraram.
Outra injeção. Saímos pelo corredor com os gritos dela a morrer atrás da porta. Passou um ano. Arrendámos a casa da dona Cícera — a renda paga exatamente as mensalidades da clínica onde vive.
E o maior pesadelo dela tornou-se realidade: a nossa família cresceu. Tivemos uma menina linda, saudável, com um cabelo encaracolado a que ninguém fica indiferente. O Marcelo visita a mãe todas as semanas, leva o telemóvel cheio de fotos e vídeos da bebé. A dona Cícera chora, implora para conhecer a neta.
Mas os psiquiatras da clínica proíbem visitas de crianças pequenas — no laudo dela constam surtos violentos imprevisíveis. E, por causa desses mesmos surtos, a minha presença foi identificada como gatilho. Fui proibida de lá entrar por ordens médicas. É uma pena.
Choro todos os dias por isso. A Renata nunca mais apareceu. Deve estar à espera até hoje que a sogra sonhada lhe ligue a dar o próximo passo do plano infalível. Quanto à dona Cícera, continua a jurar ao Marcelo que o Alzheimer foi tudo uma farsa.
Ele, já treinado pelas enfermeiras a não contrariar, suspira, passa-lhe a mão no cabelo e diz: “Tudo bem, mãe. Eu já sei. Fica tranquila. ”
Ela armou um hospício inteiro para me trancar lá dentro.
Eu fui mais esperta: deixei-a entrar primeiro.


