Foi numa noite, enquanto eu preparava o jantar, que ele finalmente disse o que vinha remoendo há meses. Não era cansaço. Era arrependimento. Arrependimento por não ter aproveitado a vida de solteiro, por termos ficado juntos desde a faculdade, por eu ser, nas palavras dele, a única parceira que ele realmente conhecera.

E depois veio a sugestão, quase em tom de piada: um casamento aberto. Era o que toda a gente estava a fazer. Respondi que não. Mas a pergunta ficou a arder: não era suficientemente atraente?
Não era suficientemente boa na cama? Ele estava simplesmente entediado comigo? Durante anos, eu fiz tudo. Exercitava-me, comia bem, planeava encontros românticos, participava nos hobbies dele, até os que não me interessavam.
Nada disso o impediu de insistir que eu o impedia de viver a juventude. Acabou por me quebrar. Em lágrimas, com o rosto desfeito, senti que estava a arruinar a vida dele. Aceitei.
Combinámos a política do “não perguntes, não contes”. Ele abraçou-me, radiante, e chamou-me a melhor esposa do mundo. No início, não participei. Não conseguia imaginar-me com outra pessoa que não fosse o meu marido.
Ele, por outro lado, começou a sair mais, a passar noites fora, sempre com o telemóvel cheio de aplicações de encontros. Maguava-me, mas eu calava. Passava as sextas-feiras sozinha em casa, e a solidão começou a sufocar-me. Até que decidi tentar.
Saí uma noite, vestida com vontade, um vestido simples e maquilhagem leve, e fui a um bar pequeno, com música alta demais. Sentei-me num canto, pedi uma bebida para parecer ocupada. Um homem aproximou-se com hálito a álcool e uma piada sem graça. Insistiu, tocou-me na mão, e inventei uma desculpa para me afastar.
A noite seguiu-se assim, vazia, desconfortável. Saí de lá a sentir-me pior do que quando cheguei. Era aquilo que o meu marido achava tão entusiasmante? Na semana seguinte, tentei outra coisa.
Sempre gostei de ler, mas tinha deixado isso para trás. Fui à biblioteca da cidade. Passei os dedos pelas lombadas, escolhi um livro, sentei-me numa poltrona. Foi então que o vi.
Estava na secção de literatura, de óculos discretos, com um sorriso suave enquanto lia. Percebeu o meu olhar, sorriu e comentou o livro que eu tinha na mão. Chamava-se Gabriel. Gostava de livros tanto como eu.
Começámos a conversar. Depois, passei a ir à biblioteca com mais frequência. Às vezes encontrava-o por acaso num café próximo. Falávamos de livros, de filmes, da vida.
Ele fazia-me sentir vista, algo que não sentia há muito tempo. Não era físico, ainda não, mas havia uma ligação que ia mais fundo. O meu marido notou. Começou a fazer perguntas que antes não fazia.
Um dia, chegou mais cedo e encontrou-me a sair para um café com Gabriel. Não menti. Disse que estava a conhecer alguém. Ele explodiu.
Disse que aquilo não era o combinado, que o casamento aberto não era para eu sair com outras pessoas, era para ele ter a liberdade dele. Fiquei parada, incrédula. Depois de tudo o que eu tinha aceitado, agora ele preocupava-se. Respondi, com calma, que pela primeira vez em meses eu me sentia viva novamente.
Ele gritou que queria fechar o casamento, que não permitiria que eu continuasse com aquilo. Olhei para ele com uma firmeza que já não sabia que existia em mim. Disse que não. Eu tinha aceitado o pedido dele, mesmo magoada, e ele não tinha o direito de controlar a minha vida agora.
Ele insistiu, apelou, tentou convencer-me de que o casamento ainda podia ser salvo. Sorri, mas era um sorriso triste. — Tu tiveste a tua oportunidade. Eu dediquei-me, tentei tudo para que funcionasse.
Quando eu sofria, tu estavas a viver a tua liberdade. Agora é a minha vez. Não vou abrir mão disto. Ele ficou em silêncio.
Pela primeira vez, percebeu que não estava no controlo. Eu estava. Saí de casa e fui encontrar Gabriel. Sabia que o casamento não tinha volta, mas sentia que estava finalmente no caminho certo.
Com o tempo, as brigas foram piorando. O meu marido não aceitava. Gritava, acusava-me, dizia que eu era egoísta, que estava a destruir tudo. Já não sentia medo nem culpa.
Apenas cansaço. Cada palavra dele confirmava que eu estava certa em seguir em frente. Até que um dia ele perdeu o controlo porque cheguei tarde de um jantar com Gabriel. Gritou, esperneou, disse que eu estava a arruinar tudo.
Quando finalmente ficou em silêncio, respirei fundo. — Eu vou embora. Quero o divórcio. Ele ficou atónito.
Tentou argumentar, gritar, até chorar. Não cedi. Arrumei umas roupas, peguei no essencial e saí de casa naquela mesma noite. Fui directa para casa de Gabriel.
Ele abriu a porta e apenas me abraçou, sem fazer perguntas. Naquele momento, tive a certeza de que estava a tomar a decisão certa. O divórcio foi difícil, mas mantive-me firme. Tinha direito a metade do que ele possuía, e exigí-lo.
Ele achou injusto, disse que se tinha sacrificado para construirmos a nossa vida juntos. Riu-me na cara dele, pela primeira vez em anos. — Sacrificado? Tu estavas ocupado a viver a tua liberdade enquanto eu fazia tudo para manter este casamento.
Não vou abrir mão do que é meu por direito. Consegui a minha parte. Usei esse dinheiro para recomeçar. Gabriel e eu decidimos tentar um relacionamento sério, sem pressa.
Alugámos um pequeno apartamento, simples, mas cheio de vida. Eu sentia-me amada, valorizada, admirada. Com ele, podia ser eu mesma, sem medo de julgamentos. Um dia, num parque, sentados na relva, ele disse, com aquele sorriso calmo que eu tanto gostava:
— Você sabe que é a pessoa mais incrível que já conheci, não sabe?
O que temos aqui é algo que quero levar para sempre. Não eram palavras vazias. Eram sinceras, vindas do coração. Naquele momento, percebi que era com ele que queria passar a minha vida.
Comprámos uma casa, pequena, com um jardim onde ele prometeu plantar as flores que eu gostava. Passámos tardes inteiras a escolher móveis, a pintar paredes, a construir o nosso cantinho. Foi nessa altura que comecei a sentir-me estranha, cansada, com enjoos matinais. Gabriel insistiu para eu ir ao médico.
Lembro-me da sala de espera, da mão dele apertada na minha. O médico entrou com os resultados, sorriu:
— Parabéns, você está grávida. Fiquei em choque. Gabriel apertou a minha mão, os olhos a brilhar.
Eu ia ser mãe. Nós íamos ser pais. A notícia trouxe uma energia nova. Gabriel lia livros sobre paternidade, acompanhava-me a todas as consultas, aprendia a cozinhar pratos saudáveis para mim.
Eu, por outro lado, sentia-me renascer. Sempre quis ser mãe, mas durante muito tempo pareceu um sonho impossível. Com ele ao meu lado, tornava-se real. O meu ex-marido já não passava de uma sombra.
Não havia raiva, nem ressentimento. Havia apenas indiferença. O meu foco era o presente, o futuro. Quando o dia do parto chegou, Gabriel esteve ao meu lado o tempo todo.
Segurou a minha mão, encorajou-me, e quando o nosso filho nasceu, chorou ao vê-lo pela primeira vez. Olhar para ele, com o nosso bebé nos braços, foi o momento mais bonito da minha vida. Agora, balanço o nosso pequeno no quarto que decorámos juntos. Penso em como a vida é imprevisível.
Há pouco tempo, eu estava perdida, presa numa relação que me consumia. Hoje tenho uma família, um lar, um futuro com alguém que realmente amo. O passado ficou onde devia estar.
E enquanto observo Gabriel a cantar para o nosso filho adormecido, sei que estou exactamente onde devia estar.


