Eu estava sentada a olhar a fonte de chocolate belga e a cascata de champanhe, a fazer as contas de cabeça, quando o meu irmão subiu ao palco e agarrou o microfone. «Pai, mãe, muito obrigado por bancarem este casamento de contos de fadas para nós. E não só isso. Obrigado também por investirem no nosso novo restaurante de gastronomia molecular.

»
Então era aquilo. O casamento tinha custado uma fortuna. O restaurante de gastronomia molecular ia ser pago pelos meus pais. E algumas semanas antes, eles tinham-me chamado burra por lhes pedir metade daquele dinheiro para a minha empresa de cibersegurança.
Eu olhei para a mesa deles. O meu pai desviou o olhar. A minha mãe fingiu que não me via. O meu irmão continuava no palco com aquele sorriso de herdeiro, e a Letícia ao lado dele, como se fosse princesa.
Levantei-me, fui ter com eles e disse baixinho:
«Então a minha empresa é jogar dinheiro fora, mas um restaurante que serve fumo é um negócio rentável? »
O meu pai nem piscou. «O dinheiro é meu, invisto no que me parece mais sólido. O teu projecto era arriscado.
O restaurante do teu irmão é algo tangível, tem a cara da família. Estuda mais, cresce. »
Tinha usado a palavra «porcaria» para descrever o meu projecto. Não disse mais nada.
Voltei para a mesa e sentei-me ao lado dos meus avós. O meu avô António viu a minha cara e apertou-me a mão. «O teu pai aposta no Júnior porque o Júnior é igualzinho a ele quando era novo. Amanhã vai lá a casa.
Leva esse teu projecto. »
No dia seguinte, mostrei-lhe tudo. Ele não percebia de servidores, não sabia o que era um firewall, mas percebia de números e de trabalho. «O retorno garantido é no primeiro ano?
»
«Sim, avô. »
Ele olhou para a minha avó. «Helena, liga ao banco amanhã cedo. Vamos fazer a transferência.
»
Chorei ali, à mesa da cozinha. Ele deu-me a oportunidade que os meus pais me tinham negado. Assinei um contrato com juros baixos, pedi demissão do banco e voltei para a cidade. Aluguei uma sala minúscula, comprei o que precisava e trabalhei dezasseis horas por dia.
Para a minha família, eu continuava a ser a desempregada que arranjava computadores. Nos almoços de domingo, faziam piadas. O grande assunto era sempre o restaurante do Júnior, a que eu chamei «fumacê». O fumacê abriu quatro meses depois.
Gastaram uma fortuna na decoração, contrataram um chef caro, e o Júnior e a Letícia passaram a noite a desfilar pelo salão como donos de tudo. Nos primeiros meses, a cidade queria ir lá tirar fotografias da comida com fumo. Depois a realidade apareceu. As pessoas saíam com fome.
Os comentários no Google eram maus. As amigas da Letícia iam todas as semanas comer e beber de graça. O movimento caiu a pique. O meu pai, em vez de fechar as portas, vendeu as duas casas de aluguer para pagar as dívidas.
Mas nunca admitiu. Continuava a exibir-se como se fosse o rei da cidade. Quando os meus avós fizeram sessenta anos de casados, ele mandou mensagem no grupo da família a marcar tudo num self-service de beira de estrada. «Fica a R$40 por pessoa, cada um paga a sua.
»
Eu respondi:
«A sério? Bodas de diamante num come-quanto-podes? Porque não fazemos um jantar decente no restaurante do Júnior? »
A resposta demorou.
O meu pai escreveu que a agenda estava lotada. «Então deixa que eu organizo uma festa. Por minha conta. »
A minha mãe ligou-me logo.
«Não finjas que tens dinheiro para competir com o teu irmão. Isso é um boteco, vais fazer o quê? »
«Mãe, eu me viro. Tratem só de fazer a lista de convidados.
»
Escolhi um salão caro, um buffet de comida a sério e uma banda de bossa nova, a música preferida dos meus avós. Quando a minha mãe viu o endereço, ligou de novo. «Esse lugar é caríssimo. Como vais pagar?
»
«A minha empresa de cibersegurança está a dar lucro. Foi com esse lucro que paguei. »
O meu pai arrancou o telefone da mão dela. «Tens capital?
Então devias falar com o Júnior. Uma sociedade no restaurante seria óptima para toda a família. »
«Não, obrigada. Tu disseste que eu não tinha tino para negócios.
Melhor não arriscar. »
No dia da festa, estava tudo perfeito. Os meus avós estavam radiantes. O meu pai entrou como se fosse o dono da festa, abraçou os amigos e aceitou elogios.
Quando um dos convidados lhe disse que ele tinha proporcionado uma festança aos pais, respondeu:
«Ah, claro. E também temos uma empresa de tecnologia que está a ir muito bem. »
Eu deixei-o falar. No fim do jantar, subi ao palco, pedi o microfone e fiz um brinde aos meus avós.
«Quando decidi abrir a minha empresa, muita gente não acreditou. Nem os meus pais. Mas os meus avós confiaram. Foram eles que investiram quando eu mais precisei.
A eles devo tudo. »
O burburinho começou. O meu pai ficou branco. Quando desci do palco, ele puxou-me para um corredor perto da casa de banho.
«Como tiveste coragem? Deixaste-me com fama de mentiroso. E porque não me disseste que foram os teus avós a pagar? »
«Porque não me contaste que tinhas investido no restaurante de espuma do Júnior?
»
O Júnior avançou. A Letícia chamou-me invejosa e maluca. Eu olhei para ela. «O que afundou o restaurante não foi o meu mau-olhado.
Foi a comida horrível e a tua corja de amigas a comer de graça. Quando a boca-livre acabar, vais ver quem te olha na cara. »
Naquela noite, bloqueei os quatro em tudo. A partir dali, a minha família era o meu avô e a minha avó.
Pouco tempo depois, o meu avô foi diagnosticado com um cancro raro. Eu paguei os melhores médicos, estive com ele em todas as consultas, cuidei da minha avó. Os meus pais quase não apareciam. O Júnior e a Letícia ainda menos.
Passavam os fins-de-semana na casa de praia do avô a postar fotografias com bebidas na piscina. Uma tarde, ele pediu-me para fechar a porta do quarto. «Bruna, o meu tempo está a acabar. Já falei com os meus advogados.
Vou doar-te todos os imóveis. A casa de praia, esta casa, o prédio comercial e a casa dos teus pais. A tua avó fica com usufruto vitalício desta casa. Promete que cuidas dela.
»
Prometi. Três meses depois, ele morreu. No velório, o meu pai fez um teatro de soluços. A minha mãe agarrava-se ao caixão.
O Júnior e a Letícia de óculos escuros, como se estivessem num filme. Eu fiquei no meu canto. Fui buscar um café para a minha avó e ouvi a minha mãe a dizer a uma amiga:
«Agora que o António se foi, temos de tomar decisões. A Helena não pode ficar sozinha.
Talvez um asilo. E a vender a casa… »
O corpo do meu avô ainda estava quente. No dia seguinte ao enterro, mudei-me para casa da minha avó.
Cinco dias depois, o meu pai ligou feito doido. «Estou aqui na casa de praia com um comprador. O caseiro não abre o portão. Diz que tu mandaste trocar as fechaduras.
Quem é que tu pensas que és? »
«Sou a dona dessa casa. O avô doou-me tudo. A casa de praia, a casa onde moro, o prédio comercial e a casa onde vocês vivem.
Tudo. »
Ele berrou que eu era uma ladra. Que tinha manipulado um velho senil. Eu desliguei.
Na reunião no escritório do advogado, ele entrou com um advogado novinho e exigiu que tudo fosse gravado. O Dr. Fernando trouxe os documentos, registados em cartório, com laudos neurológicos do meu avô e a cláusula de usufruto para a minha avó. O meu pai esperneou.
O Júnior perdeu a cabeça:
«O restaurante quebrou, sua imbecil! Tivemos de vender o apartamento! Precisamos de vender a casa de praia para pagar dívidas! »
Estava tudo confessado à frente do juiz que não estava lá, mas à frente de uma gravação.
Eu disse que não ia pôr ninguém na rua. Podiam continuar na casa, sem renda. O meu pai ficou vermelho:
«Não preciso das tuas migalhas! Vou sair da casa!
E vou expulsar os inquilinos do prédio! »
A minha mãe levantou-se, agarrou numa jarra de água e atirou-ma. Errou a pontaria e acertou em cheio no Dr. Fernando.
O advogado ficou todo ensopado. Houve um silêncio constrangedor. Depois o Dr. Fernando tirou os óculos, limpou-os, e entregou ao meu pai uma carta do avô.
O meu pai leu. A cor desapareceu-lhe do rosto. Depois amassou o papel e atirou-o ao advogado. «Aquele velho estava louco.
Vou buscar o que é meu. »
Saíram todos arrastados. A guerra estava declarada. E eles fizeram exatamente o que eu esperava.
Processaram-me por insanidade mental do meu avô. A minha mãe espalhou entre a família que eu era uma golpista. O meu pai contou a toda a gente que eu tinha roubado o património. Publicaram acusações na internet.
A minha empresa começou a perder contratos. Dessa vez, fui eu a processá-los. Calúnia, difamação, danos morais e materiais. Na audiência, a minha avó sentou-se à frente do juiz e disse:
«O meu marido sabia perfeitamente o que estava a fazer.
Doou tudo à Bruna porque sabia que, se ficasse nas mãos do Douglas, ele vendia tudo para pagar dívidas e deixava-me na rua. A Bruna foi a única que cuidou de nós. »
O juiz foi implacável. Eles foram condenados a publicar uma retratação pública e a pagar duzentos mil reais de indemnização.
O valor exato que eu tinha pedido aos meus pais, anos antes, para investir na minha empresa. Não pagaram. O juiz mandou penhorar bens. A primeira foi a loja de roupas da minha mãe.
Ela ligou-me a chorar:
«Bruna, pelo amor de Deus, não tires a minha loja. É o meu ganha-pão. »
«Não vou fechar. Fico com a loja e abato o valor da dívida.
E lembra-te do que me disseste: nunca é tarde para recomeçar. Quem sabe arranjo-te uma vaga de vendedora. »
Foi o que aconteceu. Contratei a Márcia, a vendedora que a minha mãe tratava como capacho, para gerente, com o dobro do salário.
E a minha mãe ficou a trabalhar para ela. O meu pai, sem dinheiro e sem crédito, começou a trabalhar como corretor de imóveis. Mostrava apartamentos minúsculos na planta para conseguir comissões. O Júnior voltou a cortar legumes e a descascar batatas.
A Letícia, essa ficou sozinha. Quando o restaurante fechou e a boca-livre acabou, as amigas sumiram. Eu cumpri a promessa. Mudei-me com a minha avó para a casa de praia.
Trabalho a partir da varanda, com o mar à frente, e ela cuida do jardim. A vida acalmou. Até que a Márcia me ligou uma tarde. A minha mãe chegou mais cedo a casa e encontrou o marido com a nora no sofá da sala, nus.
O Júnior chegou do trabalho no meio da gritaria e tentou avançar para o pai. O meu pai vestiu-se a correr e fugiu com a Letícia enrolada numa manta.


