Na casa de banho da escola, telemóvel na mão. Não era uma rede social. Era a minha casa em direto. No ecrã, uma mulher saía da minha casa de banho aos gritos, roxa da cabeça aos pés. O meu marido…

Na casa de banho da escola, telemóvel na mão. Não era uma rede social. Era a minha casa em direto. No ecrã, uma mulher saía da minha casa de banho aos gritos, roxa da cabeça aos pés. O meu marido...

Estava fechada na casa de banho da escola, no meio do expediente, a olhar para o ecrã do telemóvel. Não era uma rede social, não era um site de fofocas. Era a câmara de segurança da minha própria casa. E no ecrã vi uma mulher a sair da minha casa de banho aos gritos.

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Gritava de um jeito que eu nunca tinha ouvido ninguém gritar. O meu marido apareceu atrás dela, sem perceber nada. E eu ali, com o telemóvel na mão, a chorar a rir. Mas deixem-me voltar atrás.

Chamo-me Laura, tenho 30 anos e sou professora de crianças pequenas. Passo o dia a limpar narizes, a apertar ténis, a separar brigas por causa de pastéis de cera e a explicar que plasticina não se come. Paciência é coisa que não me falta. Foi por isso que aguentei, durante anos, um casamento com uma criança de 29: o Mário.

Conheci-o numa festa. Simples, engraçado, meio desligado. Daqueles que não sabem mentir porque a cara entrega tudo, ou era o que eu pensava. O Mário trabalhava como promotor de vendas.

Passava o dia com a carrinha da empresa a visitar supermercados e padarias, e chegava a casa ao fim da tarde cansado e com fome. Dois anos depois, fomos morar juntos. Uma casinha arrendada, simples. Como eu estava em período experimental na escola, o contrato ficou só em nome dele.

A rotina dele mudou quando lhe deram uma parceira nova: a Michele. “É super simpática”, disse ele, um dia, no sofá. “A gente dá-se bem. ”
Normal.

Colega de trabalho. Num churrasco em casa, o Mário convidou o pessoal da empresa. A Michele veio com o marido, o Jonas. Um tipo tímido, calado, que passou a festa inteira num canto, no telemóvel.

Tentei puxar conversa duas vezes. Respostas de duas palavras. “Legal. ” “Tá bom.

” Já a Michele era o oposto. Chegou a falar, a elogiar a casa, a comida, abraçou-me como se fôssemos amigas de infância. “Ai, Laura, que casa linda! Que capricho!

” Quando provou a minha maionese, olhou para mim como quem encontra Deus. “Esta é a melhor maionese da minha vida! Dá-me a receita! ” Dei, claro.

Depois olhou para o meu cabelo. “Que brilho é esse? O que usas? ” O meu cabelo é o meu orgulho.

Escuro, comprido, brilhante. Contei-lhe tudo: uma marca específica, cara, que eu comprava e usava com moderação. Ela suspirou. “Queria um cabelo assim.

Os churrascos passaram a ser frequentes, e ela estava sempre lá. A primeira a chegar, a última a sair, sempre com o Jonas atrás, calado, a levar com as piadas da mulher na frente de toda a gente. “Parece que trouxe um poste para o churrasco”, dizia ela. Eu sentia pena dele, mas calava.

A Michele pedia receitas de tudo. “Que delícia, Laura, ensina-me! ” Eu ensinava, porque era isso que as amigas faziam. Até que reparei numa coisa: o cabelo dela estava diferente, brilhante, hidratado.

“Comprei aquele shampoo que me indicaste”, disse, orgulhosa. Fiquei contente por ela. Depois começaram as estranhezas em casa. Comprei um frasco novo do meu shampoo.

Duas semanas depois, já estava a meio. Era impossível. Eu gastava uma quantidade mínima. “Mário, estás a usar o meu shampoo?

” Ele, que raspava a cabeça, olhou para mim como se eu fosse parva. “Eu nem tenho cabelo, Laura. ” Fiz uma marca no frasco. Quando voltei do trabalho, o líquido estava três centímetros abaixo.

A toalha dele estava sempre molhada à tarde, mas nós tomávamos banho de manhã. “É o tecido”, dizia ele. E o telemóvel: o homem que esquecia o aparelho na tomada agora dormia com ele, escondia o ecrã quando eu passava, sorria para mensagens. Eu trabalho com crianças.

Sei quando um miúdo está a mentir. E ele tinha a cara dos miúdos que juram que não comeram a plasticina. Numa sexta-feira, fiz-lhe a lasanha preferida e deixei-o beber o vinho quase inteiro. Quando ele adormeceu no sofá, peguei-lhe na mão, desbloqueei o telemóvel com o polegar dele e abri o WhatsApp.

Não precisei de procurar muito. A conversa estava no topo: “Michele”. Mensagens, fotos, áudios. “Amanhã às dez, ela está na escola, vem para casa.

” “Depois tomo banho e uso o shampoo dela. ” “Usa menos, senão ela percebe. ” “Compra um igual para mim, assim ela não nota. ” “Estás doida?

Não pago cento e tal euros num shampoo para ninguém. ”

Ali estava tudo. O shampoo a desaparecer, a toalha molhada, o telemóvel escondido. Ela vinha para minha casa no horário de trabalho, dormia com ele e depois tomava banho na minha casa de banho com o meu shampoo.

E eu, nos churrascos, elogiava-lhe o cabelo e dava-lhe receitas. Não gritei. Não chorei. Uma calma estranha tomou conta de mim.

Quem me conhece sabe que, quando eu fico quieta assim, o estrago vai ser grande. No dia seguinte, agi como se nada fosse. Beijo na porta, “bom trabalho”. Ao almoço, saí da escola, comprei três mini câmaras de segurança, com transmissão direta para o telemóvel.

Passei na farmácia e comprei um shampoo barato e um frasco de violeta genciana. Aquela coisa roxa que se usa para sapinhos de bebé. Basta pingar num pano e a mancha fica para sempre. Na pele, aguenta dias.

No cabelo, semanas. É o capeta em forma líquida. Enchi um frasco vazio do meu shampoo caro com o shampoo barato e despejei o frasco inteiro de violeta genciana para dentro. A mistura tinha a mesma cor.

Mas quem a usasse saía de lá roxo como uma ameixa. Naquela noite, instalei as câmaras. Uma na sala, uma no corredor, uma junto à casa de banho. No dia seguinte, fui para a escola como sempre.

Às 10h20, o telemóvel vibrou: movimento. Disse à auxiliar que era uma emergência de família, tranquei-me na casa de banho e abri a aplicação. Lá estavam os dois, na minha sala, a beijarem-se. Doeu?

Doeu. Aquele homem que dormia comigo, aquela mulher que me chamava amiga. Foram para o quarto. Três minutos depois, ela saía e ia para a casa de banho.

O banho durou o triplo do sexo. Depois ouvi um grito que quase partiu o altifalante do telemóvel. A porta abriu-se e a Michele apareceu. Roxa.

Os cabelos a escorrerem roxo, o rosto roxo, o pescoço, as mãos. A toalha bege parecia tingida de sumo de uva. Gritava, esfregava o rosto, e cada esfrega só espalhava mais a tinta. Parecia um minion que tinha caído numa tina de corante.

O Mário entrou em pânico: “Michele, para de andar pela casa, estás a manchar o chão! Volta para a casa de banho! ”
“Eu não vou voltar! Foi lá que fiquei assim!


“Então entra no chuveiro e esfrega! ”
“A Laura vai ver as manchas, o que é que eu lhe digo? ”
“Diz que o shampoo estragou. Não sei!


“Shampoo não estraga e deixa a pessoa roxa, Mário, não sejas burro. ”

Eu, no chão da casa de banho da escola, a chorar a rir. A rir de chorar, a rir de não respirar. A auxiliar bateu à porta: “Laura, estás bem?

” “Estou ótima, Flávia. Melhor impossível. ”

Eles resolveram ir ao hospital. Eu vi-os a passar pela câmara da sala.

A Michele vestia o passamontanhas preto do tempo da mota do Mário. Só os olhos estavam de fora, e à volta dos olhos a pele estava roxa. Parecia um assaltante de banco que se tinha pintado. Guardei tudo.

O vídeo inteiro, com data e hora. Era ouro. No intervalo, liguei para o RH da distribuidora. Atendeu a coordenadora.

“Boa tarde. Quero fazer uma queixa sobre dois funcionários que, em vez de trabalharem, passam a manhã na minha casa. ” Expliquei quem era. “Tenho os vídeos.

Quer que envie? ” Cinco minutos depois, mandei o vídeo dos dois a entrar, a beijar-se, a irem para o quarto, e a Michele a sair da casa de banho roxa como um flamingo. A coordenadora visualizou. Demorou uns minutos.

Depois respondeu: “Obrigada, Laura. Pode deixar comigo. ”

Faltava o Jonas. Não tinha o número dele, mas encontrei-o no Instagram.

Perfil de foto de paisagem, dezasseis seguidores. Mandei-lhe a mensagem com o vídeo: “Desculpa enviar isto assim, mas mereces saber o que a tua esposa faz quando diz que está a trabalhar. ” Visualizado. Sem resposta.

Voltei para a sala de aula. Acabei o dia no piloto automático. Fui para casa, abri o roupeiro e comecei a arrumar as minhas coisas. Roupa a roupa, gaveta a gaveta, as minhas panelas, os meus livros.

Estava a fechar o último saco quando a porta da frente bateu com tanta força que a parede tremeu. O Mário entrou furioso. “Despediste-me, Laura! A mim e à Michele!

Por justa causa! ”
“Eu estava na escola. Vocês é que estavam a vadiar em horário de serviço. ”
“Tive que levar a Michele ao hospital!

Trinta e cinco graus, ela de passamontanhas! O segurança barrou-a à porta. Quando ela tirou aquilo, na sala de espera, uma criança começou a chorar e gritou ‘Mamãe, olha a bruxa! ’ O médico riu-se, perguntou se era trote de faculdade.


“Que pena eu não ter visto isso. ”
“Isso não é engraçado, Laura! ”
“Para mim está a ser. ”
“Depois ligaram do RH.

O gerente pôs o vídeo na televisão. Viram tudo, Laura. Viram os três minutos. Podias ter cortado essa parte.


“Não me passou pela cabeça. ”

Ele esfregou o rosto com as mãos ainda roxas. “Perdi o emprego, não recebo subsídio, não recebo nada. Por tua causa.

” Eu ia responder, mas alguém começou a bater à porta como se a quisesse derrubar. “Mário, seu filho da mãe, abre esta porta! ” Uma voz grossa, furiosa. O Mário ficou branco.

“É o Jonas. ” “Esqueci-me de te dizer: também lhe mandei o vídeo. ” “Diz que eu não estou, Laura! ” “Mas eu avisei-o de que chegaste.

Abri a porta. O Jonas entrou e deu um estalo na cara do Mário que se ouviu na rua toda. O Mário fugiu. O Jonas foi atrás.

Os dois deram voltas ao carro estacionado, um a fugir, outro a perseguir. A vizinhança veio toda para as janelas. A Dona Neide gritou: “Geraldo, corre, vem ver a briga! ” O Geraldo apareceu sem camisa e com uma cerveja na mão.

A Cirlene sentou-se na varanda com o prato de jantar, como se fosse novela. Depois de cinco voltas ao carro, o Mário parou e resolveu mandar a verdade à cara de toda a gente: “Pois sim, peguei a tua mulher! E sabes porquê? Porque és um frouxo!

Ela veio atrás de mim porque tu não és homem que chegue! ” A Michele, que estava escondida na calçada de passamontanhas, arrancou aquilo e rebentou: “Mentiroso! Ele chantageou-me! Apanhou-me a roubar o shampoo da Laura e disse que, se eu não desse para ele, contava-lhe tudo!

” Jonas olhou para ela, roxa, a chorar. “Deixa ver se eu percebi. Roubaste o shampoo dos outros e, quando ele te apanhou, em vez de pedires desculpa, deste-lhe tudo para continuares com o cabelo bonito? ” Ela soluçou: “Jonas, eu amo-te!

” “Amas-me? Humilhaste-me durante anos na frente de toda a gente. Mas isto… isto não tem volta.

” Entrou no carro e foi-se embora. Ela ficou no meio da rua, roxa, sozinha. O Mário aproximou-se de mim, com a camisa rasgada e o beiço inchado. “Laura, temos de conversar.

” Não respondi. Entrei em casa, carreguei o carro com as minhas coisas. “Laura, não podes ir embora! Estou desempregado, como vou pagar a renda?

” Fechei a bagageira. “Não sei. E já não é da minha conta. ” Entrei para o carro e fui.

Fui para casa da minha mãe. Contei-lhe tudo, desde o shampoo a desaparecer até à Michele roxa. Ela ouviu em silêncio, a tomar café. Quando acabei, pousou a chávena e disse: “Violeta genciana?

Eu também tinha posto creme depilatório. Ficava era careca, além de roxa. ” A minha mãe tem destas coisas. O Jonas pediu o divórcio naquela semana.

A Michele ficou sem marido, sem emprego e com manchas roxas que nunca mais saíram. A violeta genciana, quando fica muito tempo, marca de vez. Ficaram-lhe umas zonas arroxeadas nas dobras do corpo e atrás das orelhas. Toda a gente perguntava, ela inventava desculpas, mas toda a gente sabia.

A história até saiu no jornalzinho da terra: “Mulher trai o marido para hidratar o cabelo com shampoo caro”. Sem nomes, mas a cidade inteira conhecia cada um. O Mário ficou sem emprego, sem mulher, com a renda para pagar sozinho e com um apelido. A Dona Neide tratou de espalhar a parte dos três minutos.

Em menos de uma semana, toda a cidade o chamava “Miojo”, porque até um macarrão instantâneo demora mais a ficar pronto. Passava na rua e era sempre a mesma coisa: “E aí, Miojo, já passaste dos três minutos? ”

Eu continuo na escola, com as crianças, com a minha paciência de santa. Reorganizo a vida na casa da minha mãe.

Se alguém me pergunta pelo Mário, digo sempre a mesma coisa: “Mário? Que Mário? ” E fico à espera, só para ver se a pessoa tem coragem de completar a piada.

Até hoje, ninguém teve.