Depois de saber que o Tomás tinha dormido com a Paula, o amor de infância dele, ainda tive de o aturar a jurar que eram apenas amigos. Apanhei-os num bar, colados um ao outro, a dançar como se o mundo não existisse. Mesmo assim, quando chegámos a casa, ele atirou-se para o sofá e teve o descaramento de me acusar de estar a fazer um escândalo. — Já te disse que eu e a Paula somos apenas amigos.

Fizeste-me passar vergonha à frente dos meus amigos. O que mais queres? — O que tu quiseres — respondi, sem interesse. O telemóvel vibrou e interrompeu a lista de queixas.
Ele levantou-se e foi para a casa de banho. Segui-o em silêncio. Ouvi a voz melosa da Paula:
— O Tomás não está a dar-te problemas, pois não? — Claro que não.
A paciência e a doçura com que respondeu eram coisas que nunca usava comigo. Ouvi as risadas idiotas dela enquanto começava a arrumar a mala. Que nojo. Uma dupla perfeita de hipócritas.
Como se algum dia quisesse voltar para ele. Mandei uma mensagem a terminar tudo e bloqueei-o. A conversa na casa de banho parou por instantes e depois continuou, como se nada tivesse acontecido. Ele sempre pensou que tinha controlo total sobre mim.
Não o podia culpar por completo: tinha andado cinco anos perdida de amores por ele. Fui eu que me encolhi até virar um capacho. Lavava-lhe a roupa de treino, comprava-lhe bebidas e presentes, engolia todos os desaforos. Mas não ia ser mais.
Saí do apartamento em silêncio, a arrastar a mala. Quando entrei no carro, o telemóvel explodiu com o grupo dos amigos dele. “A Laura vai fugir outra vez. Quantas vezes já fez isto?
Se queres um conselho, tem dignidade. Se fores embora, não voltes a rastejar para o Tomás. ”
Estavam a rir-se, como se fosse impossível esquecê-lo. Aquele grupo tinha sido criado para gozar comigo.
Eu sabia. Havia outro grupo, o sério, onde ele falava com eles. Entrei na mesma, na esperança de ler uma mensagem dele. Depois de adicionarem a Paula, ele escrevia ainda mais.
Eu consumia-me de ciúmes, à espera de um sinal que nunca vinha. Que ridícula eu fui. Olhei para o ecrã, escrevi: “Como quiserem. Entre mim e o Tomás acabou.
Adeus. ” E saí do grupo. Fui para o pequeno apartamento que os meus pais me deixaram. Fazia anos que não morava lá, mas era o meu único refúgio.
Passei três horas a limpar cada canto, até ficar exausta. Depois de um banho, vi uma chamada perdida. O coração disparou. Seria o Tomás?
Não. Era a Valéria. Ri-me, amargamente. Os velhos hábitos custam a morrer.
O telemóvel tocou outra vez. — Outra briga com o Tomás? — perguntou ela, sem rodeios. — Para que te incomodas?
Tu voltas sempre a correr para ele. As palavras atravessaram-me. Olhei pela janela e sussurrei:
— Desta vez é definitivo. Não voltamos.
Ela hesitou. — Tens a certeza? E se ele se ajoelhar e te implorar? Soltei uma gargalhada.
— Não sou masoquista. Estive cinco anos a dormir, mas acordei. — Não acredito — disse ela, mudando de assunto. — A menos que vás ao reencontro do secundário amanhã.
— O que é que isso tem a ver? — Sabia que não estavas a falar a sério sobre o fim — provocou. — Tudo bem. Vou.
E vou deslumbrante. Ela pareceu satisfeita. — Tens uma surpresa à espera. — Que tipo de surpresa?
— Se continuares com tanto mistério, vou dormir — brinquei. Ela soltou a bomba:
— O teu antigo crush do secundário vai estar lá. O Mário Vega. Apertei o telemóvel com força.
O Mário Vega era a alcunha que lhe tínhamos posto; o nome verdadeiro, Javier Delgado. O tal miúdo perfeito do secundário. Inteligente, bonito, excelente no basquetebol, gentil. O sonho inalcançável de quase todas as raparigas.
A Valéria continuou:
— O reencontro é para dar as boas-vindas a ele, que voltou ao país. E ainda está solteiro. No dia do reencontro, pus o meu plano em prática. Passei horas no salão, a garantir que cada detalhe estava impecável.
Maquilhagem perfeita, cabelo brilhante, um vestido justo que realçava as curvas. Não era só por mim. Queria mostrar a toda a gente, principalmente ao Tomás e à Paula, o quanto eu estava por cima. Entrei na festa de cabeça erguida, a ignorar os olhares curiosos.
Sabia que esperavam mais um escândalo. Desta vez não haveria escândalo. Haveria vingança fria. A primeira pessoa que vi foi a Valéria, que acenou de longe com um sorriso malicioso.
Ela sabia exatamente o que eu estava a planear. Poucos minutos depois, o Javier apareceu. Estava mais bonito do que na minha memória. Mais alto, mais maduro, com o mesmo charme natural que me fazia disparar o coração no colégio.
Se havia alguém capaz de apagar a sombra do Tomás da minha vida, era ele. Fingi surpresa ao vê-lo. — Javier? Não acredito que sejas tu.
Ele abriu um sorriso largo, visivelmente contente por me ver. Falámos durante algum tempo, a relembrar histórias antigas e a rir de momentos do passado. Parecia que a festa tinha desaparecido à nossa volta. Eu certifiquei-me de ser encantadora e divertida.
Ele estava claramente a gostar da atenção. Foi então que o Tomás e a Paula entraram no salão. Ele viu-me de imediato. Ficou colado ao chão, como se não pudesse acreditar que eu estava ali, muito menos com o Javier ao meu lado.
A Paula apertou-lhe o braço, possessiva, mas ele não tirava os olhos de mim. Decidi ignorá-los. O Javier convidou-me para dançar. Aceitei.
Enquanto ele me fazia girar pela pista, sentia o olhar do Tomás a queimar-nos. Ele odiava não ter controlo sobre mim. — Estás incrível esta noite — murmurou o Javier ao meu ouvido. Senti um arrepio na espinha e ri, de propósito.
Queria que todos vissem o contraste entre a mulher apaixonada que eu tinha sido e a pessoa que era agora. Não demorou muito para a Paula começar a discutir baixinho com o Tomás. A Valéria aproximou-se durante a dança, com um copo na mão e um sorriso divertido. — Acho que o teu ex está quase a ter um colapso.
— Perfeito. Mais tarde, fui ao bar buscar uma bebida. O Tomás aproveitou e aproximou-se. Vinha com o rosto vermelho de raiva, os olhos arregalados.
A Paula seguia-o, a tentar puxá-lo pelo braço, mas ele ignorava-a. — Precisamos de conversar. — Não temos nada para falar, Tomás. — Não podes acabar assim.
Cinco anos, Laura. Não podes deitar tudo fora. Ri-me. Uma risada fria que o fez recuar.
— Já deitei. E adivinha? Foi fácil. Ele tentou tocar-me no braço.
Afastei-me. — Laura, não podes deixar-me por causa da… — Por causa da Paula? Ah, querido, não é por ela.
É por mim. O Javier apareceu ao meu lado e pôs a mão nas minhas costas. O Tomás ficou desconfortável, como se a presença dele fosse um lembrete cruel do que tinha perdido. A Paula perdeu a paciência.
— Vem, Tomás. Ela já seguiu em frente. — E tu devias fazer o mesmo — acrescentei, com um sorriso cínico. Ele ficou parado, a olhar de mim para o Javier, sem saber o que fazer.
Por fim, desistiu e deixou-se arrastar pela Paula. Assim que desapareceram, virei-me para o Javier. — Desculpa. Ex-complicado.
Ele riu-se e apertou-me a cintura. — Sem problema. Estou mais interessado no presente do que no passado. Passei o resto da noite com ele.
Quando a festa acabou, acompanhou-me até ao carro e trocámos números. Talvez não fosse acontecer nada entre nós, mas mostrar ao Tomás que ele já não tinha poder sobre mim foi a vitória que eu precisava. Nos dias seguintes, fiquei a saber que o Tomás e a Paula tiveram uma briga feia depois do reencontro. Ele tentou justificar o comportamento, dizendo que estava confuso.
Ela não quis saber. A ironia era deliciosa: ela tinha destruído uma relação para ficar com ele e agora provava do próprio veneno. A Valéria contou-me que ele tentou contactar-me mais algumas vezes. Bloqueei-o em todas as redes sociais.
Já tinha perdido tempo demais com ele. Dediquei-me à minha carreira e, aos poucos, voltei a encontrar a felicidade. Semanas depois, recebi uma mensagem do Javier a convidar-me para sair. Aceitei sem hesitar.
Na altura, pensei que seria apenas uma aventura, uma forma de me distrair e de fechar o capítulo do Tomás. Ele era atraente, divertido e fazia-me sentir desejada. Nada mais do que um capricho momentâneo. Foi o que pensei.
Mas os dias transformaram-se em semanas, as semanas em meses, e antes de dar por isso estávamos a construir qualquer coisa mais profunda. No início, eram jantares casuais e saídas espontâneas. Depois, os momentos juntos tornaram-se essenciais. O Javier era atencioso, considerado, presente em cada pequeno detalhe.
Pela primeira vez em anos, senti que estava com alguém que me valorizava, sem manipulações, sem jogos emocionais. Um dia, convidou-me para morar com ele. Não foi um passo planeado nem calculado; simplesmente pareceu natural. As nossas vidas encaixaram-se de uma forma inesperada.
Fazíamos o pequeno-almoço juntos ao fim de semana, passeávamos ao ar livre, ficávamos a ver séries até tarde aos domingos. Não havia dramas, nem inseguranças, nem medo de ser substituída. Com ele, tudo era paz. Com o tempo, abrimos um pequeno negócio juntos.
Era uma coisa que eu sempre tinha querido fazer, mas nunca tive coragem por medo de não ter apoio. Com o Javier, sentia-me segura e capaz. Cada dia ao lado dele era uma pequena vitória sobre tudo o que tinha sofrido. Eventualmente, soube que o Tomás e a Paula nunca tinham dado certo.
A paixão que sentiram enquanto eram amantes não chegou para sustentar uma relação real. Quando a adrenalina desapareceu, o que restou foi um homem imaturo e perdido. No fim, foi ele quem perdeu. Podia ter tido alguém leal durante cinco anos, mas escolheu o caminho fácil.
O Javier e eu comprámos uma casa. Adotámos um cão. Casámos. Quando publiquei o certificado de casamento no Instagram, o Tomás apareceu à nossa porta.
Chorava, implorava para eu voltar. Como se ainda não tivesse havido drama suficiente. Olhei para ele, sem raiva, e fechei a porta. Alguns dias depois, estávamos no jardim quando o Javier me perguntou:
— Alguma vez pensaste que chegaríamos até aqui?
A verdade era que não. Tinha pensado que ele seria apenas uma aventura passageira, uma vingança doce. Mas ali estávamos nós, mais felizes do que eu jamais poderia imaginar. — Nunca pensei — respondi, entrelaçando os dedos nos dele.
— Mas não mudaria nada.


