Na noite do nosso casamento, o Alex não me tocou. Disse que estava cansado, que precisávamos de esperar. Eu acreditei. Mas, de madrugada, ele esgueirava-se para a cave.

Quando voltava, tomava banho para tirar um cheiro que eu não conseguia identificar. Perguntava o que fazia lá em baixo. Respondia que treinava. Quem é que treina no meio da noite?
Naquela noite, não aguentei. Decidi descer à cave escondida para ver o que se passava. Ele correu atrás de mim e agarrou-me pelo pijama. «Volta já para cima.
Divorcio-me de ti se puseres um pé lá em baixo. » Eu tremia de raiva. Os meus pais tinham gasto as economias de uma vida para comprar aquela casa como lar conjugal. Aquela casa também era minha.
Porque é que não podia entrar na cave? «Alex, como é que me falas assim? »
«Querida, vamos lá para cima primeiro. Explico-te tudo.
»
«Não podes explicar aqui? » Apontei para o escuro. «Porque é que não posso descer? Não tenho esse direito?
»
Ele pôs-se no meu caminho. «Tenho treinado ultimamente. Guardo o meu equipamento mais valioso lá em baixo. Mas ainda não podes vê-lo.
»
«Porquê? »
«Porque ainda não é o momento. »
Respirei fundo. «Então porque é que disseste aquelas coisas duras quando correste atrás de mim?
»
«Só fiquei alterado. Sabes como eu sou. Tenho uma língua afiada, mas sou mole por dentro. »
Soltei uma risada fria.
Virei-me para subir. Um homem podia ter uma língua afiada e um coração mole? Não. Mas deixei passar.
«Tudo bem. Espero até amanhã, quando fores trabalhar. Depois desço e descubro o que lá está. »
Mais tarde, na cama, não consegui dormir.
Ele também não. Olhava para o teto, com os olhos abertos, como se algo o assombrasse. Eu olhava para ele e pensava em como me tinha cortejado. Ele era lindo, musculoso, sedutor.
Eu era uma mulher comum. Ele dizia que gostava da minha gentileza, da minha quietude, da minha presença única. Eu acreditava. Mas se fosse verdade, porque não me queria tocar?
Nem terminámos a lua de mel. Estendi a mão para lhe tocar o rosto. Ele afastou-se como se tivesse levado um choque. «O que é que estás a fazer?
» Olhou para mim com desgosto, como se eu fosse um animal sujo. «Tu disseste que não podíamos por razões de saúde. Isso eu aceito. Mas eu só te toquei com a mão.
Porque reagiste assim? »
«Já te disse inúmeras vezes: tenho um transtorno psicológico. Estou a procurar um psicólogo. Precisas de ser paciente e esperar.
»
Agarrou no telemóvel e deu-me uma palmadinha no ombro com ele. «Querida, espera mais seis meses. Depois prometo que te vou amar como deve ser. »
Nem as mãos me podia tocar; usava o telemóvel.
Eu era assim tão nojenta? Mas não tinha escolha. Esperei. Pensava no tempo todo em que tinha dado tudo.
Quando começámos a namorar, ele dizia que gostava de relógios; comprei-lhe um relógio de luxo que custou seis dígitos. Gostava de viajar; viajei com ele pelo mundo. Quis aprender a investir; emprestei-lhe o dinheiro. Nunca me neguei a nada.
E, recém-casados, recebia desprezo. Tudo por causa daquela cave. Eu odiava aquela cave. Mas ia descobrir a verdade, mesmo que tivesse de virar a casa ao contrário.
No dia seguinte, preparei o pequeno-almoço favorito dele. Ele comeu em silêncio, como se eu fosse a empregada, não a mulher. Depois fomos trabalhar, os dois em vendas na mesma empresa de perfumes. Quando ele entrou no escritório, deixei instruções a uma colega e saí.
Não fui de carro; chamei um táxi para casa. Entrei, atravessei a sala e parei diante da porta da cave. Abri-a com força. Lá em baixo, espalhadas, estavam fotografias e cartas antigas, cuidadas mas gastas pelo tempo.
A mulher das imagens era bonita, serena. Aparecia em momentos descontraídos com o Alex, o homem que devia ser meu marido. O meu coração apertou-se. Eu estava a olhar para memórias de uma vida que não sabia que existia.
Numa prateleira alta, uma fotografia emoldurada estava escondida de propósito. Ele sorria ao lado dela com um sorriso que eu nunca tinha visto: genuíno, cheio de vida. Não o sorriso cansado que me dava a mim. Ao lado das fotografias, cartas.
Peguei numa com as mãos a tremer. A letra era delicada, fluida, de uma mulher apaixonada. Falava de sonhos partilhados, planos de futuro, amor incondicional. No verso, havia respostas escritas por ele.
Palavras que ele nunca me tinha dito. Ele também a tinha amado profundamente. Continuei a ler. As últimas cartas eram de despedida, cheias de mágoa.
Tinham terminado. Mas, pelo que via, ele nunca tinha superado. Depois encontrei um diário. As primeiras páginas eram quase ilegíveis, escritas com pressa; depois a caligrafia tornou-se mais clara.
Hesitei, mas abri. Era um reflexo da obsessão que ele sentia por ela. Ele escrevia que ela era a única pessoa que o compreendia, que fazia tudo na vida dele ter sentido. Então li o meu nome.
«A vida pôs-me com ela», escrevia. «Ela não é quem eu queria. Nunca será. Mas talvez consiga aceitar isso com o tempo.
»
O meu peito doeu. Eu não era a primeira escolha. Era apenas a alternativa. Cada gesto de carinho, cada palavra que me tinha dito, era uma tentativa de preencher o vazio que a Helena tinha deixado.
Continuei a ler, com a respiração pesada. «O nosso casamento foi um erro. Devia ter esperado. Não consigo lidar com a ideia de ter uma lua de mel com ela.
Esse era o sonho que devia ter vivido com a Helena. »
Aquele nome queimava-me. Helena. Ela ocupava todo o espaço no coração dele, enquanto eu mal conseguia entrar nos pensamentos dele.
Ficou claro: o Alex nunca me amou. Estava a fugir da dor de a perder. Eu não era o problema. Ele estava partido, preso ao passado, e eu era apenas uma vítima da incapacidade dele de seguir em frente.
Ouvi passos no andar de cima. O meu corpo congelou. Ele estava em casa. Fechei o diário, arrumei tudo no mesmo sítio e subi as escadas.
Ele estava no corredor. «Continuas aqui? Pensei que tinhas ido trabalhar. »
«Passei mal.
Voltei para descansar. »
Ele assentiu, mas os olhos ficaram em mim durante segundos a mais. Quando fechou a porta do quarto, peguei no telemóvel e escrevi à minha melhor amiga. Tinha um plano.
Precisava de sair daquela casa. Passei o resto do dia em silêncio, a fingir que estava doente, com a cabeça a fervilhar. Ele usava-me. Eu era um fantasma na casa dele, a viver à sombra da Helena.
Não sabia o que era pior: o desprezo que me mostrava ou a maneira como me fazia acreditar que o problema era eu. À noite, quando ele adormeceu, voltei à cave. Desta vez levei o diário e as cartas mais reveladoras. Não era só para o confrontar; era para me proteger.
Aquilo não era amor. Era crueldade. Guardei tudo na bolsa e prometi que não ia ficar assim. Já tinha perdido tempo demais com um homem incapaz de me amar.
Se a Helena era a peça central, então ela tinha de saber a verdade. Eu precisava de respostas. Uma pesquisa rápida mostrou-me onde trabalhava. Estacionei o carro perto do escritório dela e esperei, com o coração a bater descontrolado.
Quando a vi sair, percebi a razão da obsessão do Alex. Helena era bonita, elegante, confiante. Não era só a aparência; era a força que transmitia. Algo que o Alex nunca podia controlar.
Talvez fosse isso que o atraía. Aproximei-me. «Desculpe. Você é a Helena?
»
Franziu a testa, confusa. «Sou, sim. Posso ajudar? »
A minha voz tremia.
«Sou a esposa do Alex. Sei que parece estranho, mas preciso de falar consigo. É importante. »
Ela hesitou, mas concordou.
Sentámo-nos num café. Contei tudo: a cave, as cartas, o diário, a maneira como ele nunca a tinha superado. Enquanto eu falava, os olhos dela mostravam choque e desconforto. «Não sabia que ele ainda guardava essas coisas.
» Respirou fundo. «Tivemos uma relação há muitos anos. No início foi bom, ele era atencioso, apaixonado. Mas com o tempo tornou-se sufocante.
Ele tinha uma necessidade de me controlar, de me pôr num pedestal que eu nunca pedi. Quando percebi que não era amor, mas obsessão, terminei. Foi difícil, mas foi o melhor para mim. »
As palavras atingiram-me como um murro.
Tudo fazia sentido. Ele não estava preso ao passado; estava preso à ideia de Helena, à versão que tinha idealizado. «E eu? » perguntei com a voz embargada.
«Porque é que ele me escolheu? Porque me pareço consigo, não é? »
Ela desviou o olhar, desconfortável. Não negou.
«Talvez. Mas você não é responsável por isso. Ele precisa de ajuda. Não acho que seja algo que você possa consertar.
»
Agradeci a sinceridade, mas era um golpe cruel. Toda a minha vida com o Alex tinha sido uma farsa. Saí do café decidida. Ele não merecia mais um minuto do meu tempo.
Quando cheguei a casa, ele estava na sala, distraído com o telemóvel. Mal ergueu os olhos. Mas o silêncio deve tê-lo avisado. «Precisamos de conversar.
»
«O que é que houve? »
Puxei o diário da bolsa e atirei-o para cima da mesa. «Estive na cave. Li tudo.
As cartas, as tuas anotações, o teu diário. »
O choque foi imediato. «Não tinhas o direito de mexer nas minhas coisas. »
Soltei um riso amargo.
«As tuas coisas? Estás a falar das cartas para a Helena? Do diário em que escreves que eu nunca estarei à altura dela, que o nosso casamento foi um erro porque não conseguiste esperar? »
Ficou pálido.
Não respondeu. Aproveitei o silêncio. «Fui falar com ela, Alex. Sabes o que ela me disse?
Que terminou contigo porque és obcecado, porque transformaste o que sentias por ela em algo doentio. E agora eu sou só uma substituta. Uma versão piorada dela que achaste que podias manipular. »
Tentou interromper.
«Isso não é verdade. »
«Não me mintas. Não depois de tudo. Fui tua mulher.
Fiz tudo por ti: apoiei-te, amei-te, dediquei-me a este casamento. E o que recebi? Desprezo, silêncio, e a descoberta de que só me escolheste porque era parecida com ela. »
Ele baixou a cabeça, derrotado.
«Sinto muito. »
Soltei outro riso, agora com desprezo. «Não sentes. E sabes?
Foi exatamente por isso que ela te deixou. Porque não sabes amar ninguém além da ideia que crias na tua cabeça. Nunca me viste de verdade, Alex. E recuso-me a passar mais um segundo da minha vida com alguém tão patético.
»
Fui para o quarto, fiz as malas e liguei a um advogado no mesmo dia. O divórcio seria rápido e definitivo. Não deixaria margem para arrependimentos. No fim, ele perdeu mais do que um casamento.
Perdeu qualquer hipótese de redenção. Enquanto eu reconstruía a minha vida, ele ficou preso ao passado, sozinho com as memórias e os arrependimentos. Mereceu cada segundo.


