Vinha a conduzir para casa depois de um dia exaustivo quando o meu filho, o Miguel, de doze anos, me ligou com a voz a tremer. — Pai, não voltes para casa esta noite. Por favor. Eu descobri uma coisa sobre a mãe.

Algo muito grave. — Miguel? O que foi? Onde estás?
— Estou no quarto. Ela pensa que estou a fazer os trabalhos de casa. Ouvi-a a falar ao telefone esta tarde. Está a planear qualquer coisa contra ti.
Pai, estou com medo. Senti o sangue gelar. Renata, a minha mulher há quinze anos. A mãe do meu filho.
— Escuta com atenção. Pega na mochila, mete roupa e o carregador, sai pela janela do teu quarto, desce pela árvore como fazias em pequeno. Vai para casa do Pedrinho. Não digas nada do que ouviste.
Eu trato disto. — Mas e tu, pai? — Vou ficar bem. Confia em mim.
Desliguei com as mãos a tremer no volante. O meu nome é Carlos Henrique, tenho cinquenta e três anos, sou engenheiro civil. Até aquela noite, achava que tinha uma vida estável. O casamento com Renata não estava perfeito nos últimos anos, mas nunca imaginei que ela fosse capaz de planear algo contra mim.
Liguei para o meu irmão mais novo, o Rodrigo. — Preciso da tua ajuda. É urgente. Posso dormir aí hoje, mas não contes a ninguém que estou contigo.
— Aconteceu alguma coisa? — Explico quando chegar. Na casa dele, contei tudo. Rodrigo ouviu em silêncio.
— Tens a certeza de que o Miguel não percebeu mal? Ele tem doze anos. — Conheces o Miguel. Ele não inventa uma coisa destas.
Peguei no telemóvel e abri o e-mail da Renata. Sempre tivemos acesso um ao outro. A maioria das mensagens era trabalho. Depois vi um e-mail de três dias antes, de um remetente desconhecido, com o assunto: “Confirmação do serviço”.
Dizia apenas que o serviço seria executado na data combinada e que o pagamento estava garantido. Não havia assinatura. — Que raio é isto? — murmurou Rodrigo.
Na pasta dos enviados, encontrei a resposta dela: “O pagamento está garantido. Não pode haver erros. ”
Aquilo parecia uma contratação. Mas de quê?
— Precisas de ir à polícia — disse Rodrigo. — E dizer o quê? Que a minha mulher mandou um e-mail estranho? Sem provas, vão rir-se de mim.
Voltei para o meu bairro, mas não entrei em casa. Estacionei a duas ruas de distância e fiquei num ponto onde via a entrada sem ser visto. Eram dez da noite. A casa tinha luzes acesas.
Esperei. Às onze e um quarto, um carro preto parou em frente. Um homem alto, magro, de casaco escuro, saiu e tocou à porta. A porta abriu-se antes de ele tocar.
Renata estava à espera dele. Trocaram palavras na entrada e ele entrou. O meu mundo parou. Quinze minutos depois, saíram juntos.
Fiquei à distância, a gravar com o telemóvel. Ouvi fragmentos:
— Amanhã de manhã, então. Ele sai cedo? — Sempre.
Por volta das seis e meia vai estar sozinho na estrada. — Tens a certeza de que vai funcionar? — Já fiz isto várias vezes. Vai parecer um acidente.
Ninguém vai suspeitar. Senti as pernas fraquejarem. — Amanhã, seis e meia, Rodovia dos Bandeirantes, altura do quilómetro cinquenta e dois. Recebes a confirmação depois.
O homem entrou no carro e foi-se. Renata voltou para dentro. Fiquei ali, imóvel, com o telemóvel ainda a gravar. A mãe do meu filho tinha contratado alguém para me matar.
E ia acontecer de manhã. Voltei a correr para casa do Rodrigo. Mostrei-lhe o vídeo. — Isto é real?
— perguntou, pálido. — É. Amanhã de manhã. Na estrada.
— Tens de ligar já para a polícia. — Se ligar agora, ela nega tudo. Diz que o vídeo é falso, que eu inventei. Preciso de a apanhar em flagrante.
Vou fingir que saio para o trabalho como sempre. Tu segues-me de longe e filmas tudo. — Estás doido. Esse homem é um profissional.
— E se ela é capaz de planear a minha morte, quem me garante que o Miguel não é o próximo? Não posso deixar que fique impune. Rodrigo hesitou. Depois disse:
— Então eu vou contigo.
Sem discussão. Passámos a noite a planear. Também liguei a um advogado de confiança, o Dr. Fábio, que se colocou de prontidão.
De manhã, liguei à Renata. Atendeu com uma voz doce, falsa. — Carlos? Não voltaste para casa ontem.
— Tive um problema urgente no escritório. Acabei por dormir lá. — Ah, tudo bem. Vens a caminho?
— Vou só passar por casa para tomar banho e sigo para o trabalho. — Então conduz com cuidado. A estrada anda perigosa. Tem havido muitos acidentes.
Aquele desejo de “cuidado” fez-me gelar. Entrei em casa, tomei banho, vesti-me. Renata estava na cozinha, a sorrir. — Não queres comer nada?
— Não, estou com pressa. Saí às seis e vinte e cinco. Pelo retrovisor, vi o Rodrigo três carros atrás. A rodovia estava quase vazia.
O telemóvel tocou. — Carlos, há um carro cinzento atrás de ti desde que saíste. Acho que é ele. — Estou a vê-lo.
Continua a filmar. Continuei a conduzir, com o coração a bater forte. O quilómetro quarenta e oito. O carro cinzento começou a aproximar-se.
Era ele, o homem da noite anterior. De repente, acelerou e veio na minha direção, tentando empurrar-me para o acostamento. Desviei no último instante. — Ele tentou tirar-me da pista!
— Estou a ver. A polícia já vem a caminho. Ele tentou de novo, batendo na traseira. O carro derrapou.
Lutei com o volante. Depois veio pela lateral, tentando espremer-me contra o separador. Travei a fundo e ele passou. Voltou para trás de mim.
— Carlos, sai da estrada! Entra no acostamento! Obedeci. O carro cinzento seguiu-me.
Foi nesse momento que as sirenes apareceram. Duas viaturas em alta velocidade. O homem hesitou, depois fugiu. Uma viatura parou junto a mim.
Dois polícias saíram. — O senhor está bem? — Ele tentou matar-me. Vejam o que tenho a dizer.
Na esquadra, apresentei o vídeo da noite anterior, os e-mails, e o Rodrigo entregou a gravação da estrada. O delegado ouviu tudo. — Já mandámos uma equipa buscar a senhora Renata para interrogatório. Ela negou tudo.
Não conhecia o homem, nunca contratou ninguém, o vídeo era fabricado, eu queria o divórcio. O advogado dela tentou desmontar tudo. Mas a Promotoria pediu medidas cautelares. Interceptação telefónica, quebra de sigilo bancário, buscas.
Em três dias, apareceu o fio da meada. Renata tinha transferido cinquenta mil reais para uma conta no estrangeiro. A conta pertencia a um homem chamado Márcio Tavares, com antecedentes por homicídio e extorsão. — É este o homem?
— perguntei. — Acreditamos que sim. Já emitimos mandado. O juiz decretou prisão preventiva para Renata.
Quando me disseram, senti alívio, mas também um vazio estranho. Levei o Miguel para casa de um amigo, depois fui buscá-lo. Disse-lhe que a mãe tinha feito escolhas muito erradas e que a polícia estava a tratar de tudo. Ele ficou muito quieto.
Só me perguntou:
— E agora? Ela vai para a prisão? — Vai ter de responder pelo que fez. — E eu vou ter de morar com ela?
— Não. Vais ficar comigo. Sempre. Duas semanas depois, o Márcio foi capturado no Paraguai.
Na primeira noite de interrogatório, confessou tudo: o plano, o pagamento, a promessa de mais cinquenta mil depois do “acidente”. Com a confissão dele, o caso contra Renata ficou fechado. O julgamento foi marcado três meses depois. Entrei no tribunal sem olhar para a multidão.
Renata estava lá, sentada, impassível. Quando os nossos olhos se cruzaram, não vi arrependimento. Vi raiva. A promotora apresentou as provas.
O advogado de defesa tentou dizer que ela tinha sido coagida pelo executor. Depois chamaram o Márcio. — Ela queria que eu matasse o marido. Pagou cinquenta mil adiantados e prometeu mais cinquenta depois.
— Tem alguma prova de que foi ela? — Tenho. Gravei as chamadas. Quando a voz de Renata encheu a sala, ela ficou pálida.
O júri demorou três horas. O veredicto foi culpada. O juiz condenou-a a vinte anos de prisão. Saí do tribunal sem olhar para trás.
Em casa, o Miguel esperava-me. Abraçou-me sem dizer nada. Nos meses seguintes, vendi a casa onde morávamos. Estava cheia de memórias que eu não queria carregar.
Comprei um apartamento mais pequeno, mais perto da escola do Miguel. Ele foi para uma nova escola, fez amigos, voltou a sorrir. Ainda tinha pesadelos, mas cada vez menos. No primeiro ano após o julgamento, recebi uma carta da prisão.
Renata dizia que não pedia perdão, mas que sabia que tinha estragado tudo. Que o Miguel merecia tudo de bom. Deitei a carta fora. Não tinha resposta para lhe dar.
Dois anos depois, recebi uma chamada da penitenciária. A Renata tinha sido esfaqueada numa briga com outra detenta. Estava hospitalizada em estado grave. Contei ao Miguel.
— Queres ir vê-la? Ele pensou muito tempo. — Acho que sim. Se ela morrer, não quero ficar com remorso.
Fomos ao hospital. Ela estava na UTI, ligada a máquinas, muito frágil. Quando nos viu, encheu-se de lágrimas. — Miguel…
meu filho… Ele segurou-lhe a mão. — Sinto muito — disse ela, com voz quase inaudível. — Por tudo.
Senti que me ia perder sem o teu pai. Mas estava errada. Muito errada. — Porque fizeste aquilo?
— perguntou o Miguel, a chorar. Ela não respondeu. Uma enfermeira pediu-nos para sair. Renata morreu dois dias depois, sozinha.
O funeral foi pequeno. O Miguel não chorou. Quando me perguntou se era mau não sentir tristeza, respondi que não. O vazio também é um sentimento válido.
A morte dela fechou qualquer capítulo que ainda estivesse aberto. Aos poucos, a nossa vida encontrou outra forma. O Miguel entrou na faculdade, fez amigos, começou a namorar. Eu voltei ao trabalho e, sem dar por isso, comecei a olhar para a frente.
Conheci a Patrícia no escritório. Era engenheira nova, simpática, cheia de energia. Durante meses, fui cordial, mas distante. Não confiava na minha capacidade de ler pessoas.
Ela esperou. Um dia, convidou-me para jantar. — Mas antes, precisas de saber uma coisa sobre mim. Contei-lhe tudo.
Ela ouviu em silêncio. — Obrigada por confiares em mim. Não tenho pressa. Só quero conhecer-te melhor.
Começámos a sair. Não foi fácil no início. Havia noites em que qualquer palavra me devolvia ao passado. Mas ela não desistiu.
Tinha uma paciência que eu não sabia que existia. O Miguel aprovou-a desde o primeiro dia. — Ela gosta mesmo de ti, pai. E depois de tudo, mereces alguém que goste de ti de verdade.
Casámo-nos numa cerimónia pequena, só com família e amigos. O Miguel foi o meu padrinho. Quando disse “sim”, percebi que estava a recomeçar. Não uma segunda vez, mas pela primeira vez em muitos anos.
O tempo passou. O Miguel formou-se em engenharia, arranjou emprego, ficou noivo, casou. Quando nasceu o primeiro neto, segurei-o nos braços e senti uma gratidão imensa por estar vivo. Não esqueci o que aconteceu.
As cicatrizes ficaram. Mas deixaram de doer. Hoje, escrevo isto numa tarde de sábado, na varanda de casa. A Patrícia está na cozinha.
O Miguel deve chegar a qualquer momento com a Beatriz e as crianças. O Rodrigo telefonou a dizer que traz a sobremesa. É um dia comum. Perfeito na sua simplicidade.
Oiço o carro a chegar. Oiço a voz dos meus netos a chamar por mim. E sei que venci. Não porque foi fácil.
Mas porque escolhi continuar. E essa escolha, dia após dia, foi o que me salvou.


