Acordei no chão da cozinha numa quinta-feira de abril. Três dias depois, fugi do asilo às duas da manhã com a minha melhor amiga. A minha filha garantiu que era para o meu bem: cheirava a limpeza,…

Acordei no chão da cozinha numa quinta-feira de abril. Três dias depois, fugi do asilo às duas da manhã com a minha melhor amiga. A minha filha garantiu que era para o meu bem: cheirava a limpeza,...

Fugi de um asilo às duas da manhã com a minha melhor amiga. Tinha oitenta e cinco anos e uma mochila às costas. Mas, antes de chegar à fuga, é preciso perceber o que me levou a sair. Cheguei ao Recanto Sereno numa quinta-feira de abril de 2025, depois de acordar no chão da cozinha.

Thumbnail

A minha filha Valdirene segurava a minha mão e repetia que ia ser bom. O lugar era bonito, cheirava a limpeza, mas tinha horário para tudo: café às sete e meia, almoço ao meio-dia, lanche às três, jantar às seis e meia. As mesas eram fixas, cada residente tinha a sua. No primeiro jantar, um senhor comeu sem tirar os olhos do prato.

À frente, uma mulher passou a refeição a olhar pela janela, com uma ausência que não era tristeza. Era uma pessoa que já tinha ido embora de si mesma. Na noite do segundo dia, deitei-me no quarto e pensei em quantos ali tinham dito que não queriam pintar e tinham acabado por pintar a si mesmos, sem energia para resistir à rotina. No terceiro dia, encontrei a Ondina no corredor.

Ela estava lá há dois anos. Quando me viu, agarrou-me o braço e disse:

— Luzia, aqui não se vive. Aqui espera-se até morrer e ser esquecida. Eu conhecia aquela mulher desde os nove anos.

Vi nos olhos dela uma desistência que me assustou mais do que qualquer doença. Contou-me que o filho, o Cláudio, decidira que ela não podia viver sozinha depois de uma queda na casa de banho. Ela assinara uma procuração e entrara ali a pensar que era temporário. Dois anos depois, continuava.

No início pedia, reclamava, depois cansou-se de pedir. Naquela noite, passou pelo meu quarto e sussurrou:

— O pior é que aqui deixamos de ser pessoas. Viramos residentes. Temos número de cama, escala de banho, mesa designada.

No dia seguinte, chamei-a ao jardim. — Queres sair daqui? Ela ficou a olhar para mim. — Vens morar comigo na minha casa do Jardim Paulista.

Há um quarto vago desde que o Alides morreu. — O Cláudio tem uma procuração. — Procuração não é corrente. Assinaste, podes revogar.

Mas primeiro temos de sair. — A que horas? — Às duas da manhã. Naquela noite vesti-me e pus as meias por cima dos sapatos.

A Ondina achou a ideia ridícula e perfeita. Atravessámos o corredor da ala dois, abrimos a porta lateral e chamámos um táxi pelo telemóvel. Às duas e vinte estávamos em minha casa. Liguei a chaleira e fizemos chá.

Ela adormeceu no quarto de hóspedes. Eu dormi na minha cama, com o meu travesseiro, pela primeira vez em dias. De manhã, a Valdirene ligou. — Mãe, o Recanto Sereno ligou a dizer que a senhora não está lá.

— Estou em casa. Fiz chá. — Mãe, como é que a senhora saiu? — Com a mochila às costas.

Ela chegou em dezoito minutos. Abraçou-me, depois olhou para a Ondina e perguntou o que se passava. Expliquei que não queria ficar a desaparecer num quarto bonito. Ela disse que eu não podia morar sozinha.

— E se acontecer outra vez? A tontura, o chão? — Uma queda pode acontecer aqui ou lá. Lá há enfermagem, tens razão.

Mas lá eu era a senhora do quarto doze com escala de banho. Aqui sou a Luzia. Há diferença. Fiz uma proposta: um mês em casa, com a Ondina, uma cuidadora três vezes por semana, consulta médica semanal.

A Valdirene aceitou, com a condição de ligar todos os dias. Na segunda-feira fomos ao centro de referência da pessoa idosa. A assistente social, Rosimeire, explicou que a procuração podia ser revogada num cartório, desde que a Ondina estivesse capaz. E estava.

Fomos ao cartório nessa tarde. Ela assinou com a caligrafia firme de quem foi professora. Na calçada, disse:

— Dois anos e eu não sabia que podia fazer isto. — Sabias.

Só não tinhas ninguém a dizer que era possível. No sábado, o Cláudio apareceu de fato, com ar de quem vinha resolver. Disse que a mãe tinha sido irresponsável. — Mãe, você caiu no banheiro.

Podia ter-se magoado. — Caí. Não me magoei. Assustei-me.

Mas queda é risco de estar viva. Não é motivo para parar de viver. — Perguntaste se eu estava bem cuidada, se a comida era boa. Nunca perguntaste se eu era feliz.

— Eu fiz o que achava certo. — Fizeste o que te deixava tranquilo. Não é o mesmo. Ele ficou calado, olhou o quintal e acabou por mostrar um serviço de telemonitorização para idosos.

Aceitámos. Ficou para almoçar. A Ondina temperou o frango como a família dela fazia desde Pernambuco. Comemos juntos, com um silêncio diferente do silêncio do asilo.

Com o tempo, a cuidadora Rosária passou a vir segunda, quarta e sexta. A dona Perpétua, vizinha, começou a aparecer para o café às terças e quintas. A dona Neusa, antiga colega da Ondina, trouxe um vaso de manjericão e ficou até ao almoço. A Valdirene passou das ligações diárias para visitas sem avisar.

Numa tarde de junho, disse-me:

— Estás mais tu aqui do que estavas lá. Em julho, sentadas na varanda com o café a esfriar, a Ondina perguntou se eu me arrependia de ter complicado a minha vida. — Não complicaste. Voltaste para ela.

Eu estava a ficar como tu, só que sem entrar num lugar bonito. Tu deste-me motivo para agir. Isso é presente. Ela olhou para o pé de jabuticaba que o Alides plantara em 1980 e disse que precisava de lá estar em dezembro.

Ia estar. A outra história é a de Irene. Tenho noventa e nove anos e moro num quarto pequeno de uma casa de repouso em Cuiabá. Vendi a casa que construí com o meu marido e dei o dinheiro aos meus filhos.

Não conto isto para me lamentar. Conto porque alguém me está a ouvir e ainda vai a tempo de não fazer o mesmo. O Benedito morreu em 1998. Na noite antes de partir, abriu os olhos e disse:

— Irene, não vendas a casa.

Eu prometi que não. Quatro anos depois, vendi. Foi uma conversa de cada vez. A Rosângela a dizer que estava preocupada, que eu vivia sozinha, que a casa era grande.

O Edmar a fazer as contas: vendias, dividias, ficavas com uma reserva. O Valdemir a repetir que era o melhor. Visita após visita, a ideia entrou devagar, sem que eu percebesse. Em 2002, assinei a venda por cinquenta e quatro mil reais.

Dividi pelos três, fiquei com seis mil. A Rosângela prometeu que eu morava com ela, que ia ter um quarto só meu, que íamos ter a convivência que nunca tínhamos tido. Mudei-me em janeiro de 2003. Em setembro, ela chamou-me à cozinha e disse que aquilo não estava a funcionar.

Que o Osvaldo andava stressado. Que os miúdos precisavam de espaço. Que eu precisava de independência. Alugou-me um apartamento por quatrocentos e cinquenta reais.

A minha reforma era trezentos e oitenta. Ela completava quando se lembrava. O Valdemir pediu-me três mil emprestados. Nunca mais os vi.

A casa que vendi por cinquenta e quatro mil valia cento e vinte mil cinco anos depois. Se tivesse ficado com ela, nunca teria precisado de pedir nada a ninguém. Passei quinze anos num apartamento pequeno, a aprender os barulhos dos vizinhos, a almoçar sozinha aos domingos. Os filhos apareciam pelo Natal.

O Edmar ficou quarenta minutos uma vez. O Valdemir sumia três meses sem dar notícia. Eu não dizia nada. Tinha passado a vida inteira a ensinar-lhes que não precisava de nada.

E eles aprenderam. Em 2018, entrei para o Lar São Francisco. A Jandira, uma técnica de enfermagem, tornou-se a pessoa que melhor me conhecia. Cuidava de mim todos os dias, sem falta.

Os meus filhos não. Aos noventa e nove anos, percebi que não podia ir embora com aquilo engolido. Não pelo dinheiro, que já não voltava. Mas porque a dívida mais difícil é a que ficamos a dever a nós próprios.

A Rosângela apareceu num domingo de julho, com um pote de goiabada e pressa para ir ao mercado. Sentei-me na beira da cama e disse:

— Em 2002 prometeste que eu podia morar contigo. Nunca explicaste o que mudou. Guardei isto vinte e dois anos.

Ela olhou para as mãos. Depois disse, baixo:

— O Osvaldo. Nunca se habituou. — Escolheste magoar-me.

E disseste que era pelo meu bem. — Mãe, eu errei. — Eu também ensinei-vos a não precisar de nada. Ensinei-vos que amor de mãe era não dar trabalho.

A responsabilidade é dos dois lados. Ela não prometeu nada na saída. Mas na manhã seguinte, a Jandira disse que a Rosângela tinha ligado e que vinha na semana seguinte. Não sei se vai mudar alguma coisa.

Mas é qualquer coisa. Peguei na fotografia do Benedito e disse em voz alta:

— Você pediu para não vender. Eu vendi. Errei.

Mas ontem disse o que tinha de dizer. Isso fiz direito. Pousei a fotografia, tomei o café. Lá fora, Cuiabá esquentava como todos os dias.

E eu, pela primeira vez em vinte e dois anos, acordei sem a mala às costas.