Quando o Ita se declarou à rapariga nova, toda a gente esperava que eu fizesse um escândalo. Eu não apareci. Fiquei escondida atrás das árvores do pátio, com a pulseira que ele me dera há dez…

Quando o Ita se declarou à rapariga nova, toda a gente esperava que eu fizesse um escândalo. Eu não apareci. Fiquei escondida atrás das árvores do pátio, com a pulseira que ele me dera há dez...

Toda a gente esperava que eu fizesse um escândalo quando o Ita se declarasse à rapariga nova. Mas, para desilusão de todos, eu não apareci. Estava atrás das árvores, a observar. O Ita pedira segredo sobre mim, mas os fofoqueiros não se contêm.

Thumbnail

Já me tinham contado que ele andava completamente encantado por aquela aluna transferida. E todos esperavam que eu chorasse, gritasse, causasse um alvoroço. Adoravam esse tipo de drama. Mas, mesmo depois de ele se declarar com sucesso, eu continuava sem aparecer.

A multidão, com três filas de curiosos, começou a perder o interesse. Até o rosto do Ita deixou de mostrar alegria. Abraçou a namorada nova e pegou no telemóvel. Sem chamadas, sem mensagens.

Franziu a testa e virou-se para a multidão:

— Hoje à noite é por minha conta. Estão todos convidados. Os aplausos encheram o pátio. Foi então que saí das árvores.

Alguém me viu e gritou:

— É a Mia! A Mia está aqui! Eu sabia que ela não ia ficar de fora! O Ita ergueu os olhos quando me viu.

Os cantos da boca curvaram-se, quase impercetíveis. Ignorei todos os que esperavam um drama e caminhei diretamente até ele. — Mia. — Ele apertou a rapariga contra o peito e falou friamente.

— Sentimentos não se forçam. Conhecemo-nos há mais de dez anos. Não quero dizer nada duro que estrague a nossa amizade. A partir de agora, continuo a tratar-te como irmã.

Se precisares de alguma coisa, podes contar comigo. Baixou a voz:

— Com tanta gente a olhar, não faças uma cena. Vai para casa. — Ita — interrompi, dando um passo em frente.

Ele franziu a testa:

— Mia, comporta-te. Sorri e estendi-lhe a pulseira que acabara de tirar do pulso:

— Vim devolver isto. Ao vê-la, a cara dele escureceu:

— Mia, que jogo é que estás a jogar? Pega na pulseira.

— Não te vou incomodar mais depois disto. — Não me importo com esse pouco de dinheiro. Se não a queres, deita-a fora. Virei-me e atirei a pulseira para o caixote do lixo mais próximo.

— Também podes deitar fora tudo o resto que me deste. E fui embora, sem olhar para trás. Cheguei à margem do rio já a chover. Fiquei ali de pé, com o guarda-chuva, a pensar nos sonhos que tivera nas últimas noites.

No sonho, eu tinha feito tudo ao contrário: chorara, fizera um escândalo, ameaçara saltar para o rio para o obrigar a terminar com a rapariga. E saltara. Quase perdera a vida. O Ita ficou no hospital cinco minutos e foi-se embora.

A família Brown, que me acolhera, achou que eu os estava a envergonhar com a tentativa de suicídio. E, por causa da atitude dele, sentiram que eu já não lhes servia para nada. Fui obrigada a sair da escola e devolvida aos meus pais biológicos, envolvidos em todo o tipo de vícios. No fim, a minha vida desmoronou-se e morri miseravelmente num país estrangeiro.

Quem recolheu os meus restos foi exatamente a pessoa que eu sempre temera e mantivera à distância. O Daniel. Ele chorou por mim. Depois, carregou um frasco com as minhas cinzas durante toda a vida.

Ficou sozinho. O Ita, recém-casado e radiante, nunca apareceu. Os acontecimentos do sonho estavam a tornar-se reais, um a um. Se não fosse por ele, eu já estaria a ligar para o Ita em pânico, a ameaçar matar-me, a saltar para o rio.

Em vez disso, sentia-me renascida. Podia mudar o meu destino trágico, pouco a pouco. Na terceira vez que disquei o número, atenderam. Apertei o telemóvel e aproximei-o do ouvido.

O nome Daniel Black flutuou na minha cabeça antes de eu o pronunciar. A chuva forte cortava todo o ruído do mundo. — Daniel? Está a chover muito.

Estou na margem do rio e não consigo voltar. Podes vir buscar-me? Silêncio na linha. Apertei o cabo do guarda-chuva com a palma suada.

— Mia. Está a chover muito. — A voz dele soou profunda, levemente preguiçosa, com um toque de impaciência. — Eu não disse que não ia.

Espera. Estou aí em vinte minutos. — Está bem. Vou esperar por ti, Daniel.

Ele desligou sem dizer mais nada. Quinze minutos depois, dei o guarda-chuva a uma mãe e a uma criança que procuravam abrigo. Quando o Daniel chegou, eu estava ensopada da cabeça aos pés. Ele saiu do carro com os lábios apertados, o rosto frio como geada.

Afastei a franja molhada e sorri:

— Daniel, tu és mesmo pontual. — Mia. Tinha mesmo de morrer de estupidez? Agarrou-me no braço, com mais força do que o necessário, e empurrou-me para dentro do carro.

O pulso ficou com marcas vermelhas. Atirou-me uma manta macia. — Enxuga-te. Não me sujes o carro.

Enrolei-me na manta e fiquei a observá-lo pelo retrovisor enquanto conduzia. Sem expressão, parecia frio e inacessível. Muitas raparigas o queriam, mas nenhuma tinha coragem de se declarar. Era colega de quarto do Ita.

Eu costumava ir ao dormitório para ver o Ita, e o Daniel parecia detestar-me. Agora, mesmo a vir buscar-me, continuava frio. Era difícil acreditar que eu gostava dele em segredo há tanto tempo. No sonho, ele tinha aparecido.

Mas, com tudo a mudar, será que ainda ia gostar de mim? De repente, ele perguntou:

— Voltas ao dormitório? O meu coração deu um salto. — Volto ao meu dormitório.

Ele apertou o volante e bufou:

— O Ita não volta esta noite. — Eu sei. Não vou atrás dele. O carro avançou mais um pouco antes de travar bruscamente, parando na berma.

Olhei à minha volta, confusa. Estávamos em frente ao antigo parque da cidade, onde passáramos tantas tardes despreocupadas antes de o Ita conhecer aquela rapariga. O silêncio entre nós ficou quase sufocante, cortado apenas pela chuva no tejadilho. As luzes dos postes projetavam sombras que iam e vinham como as memórias que eu tentava sufocar.

Voltei a ver o sorriso de deboche do Ita quando devolvi a pulseira. Como ele costumava dizer que me via como irmã, sempre em público, sabendo muito bem o que eu sentia. Depois de anos de amizade, escolheu humilhar-me para impressionar uma rapariga que mal conhecia. A raiva cresceu.

Mas, com ela, veio a libertação, como se finalmente tivesse acordado de um sonho ridículo. Ele desligou o motor e olhou para mim de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Um olhar intenso, carregado de qualquer coisa entre desprezo e preocupação. — Porque é que continuas a sujeitar-te a isto?

— disse, com a voz baixa mas afiada. — Porque é que continuas a humilhar-te por alguém como o Ita? Alguém que nem se importa o suficiente para olhar para trás? Engoli em seco.

Era a primeira vez que alguém dizia em voz alta o que eu mesma tentava negar. Olhei para as minhas mãos, ainda trémulas, à procura de uma resposta que não soasse patética. — Eu… — a voz saiu mais fraca do que queria.

— Eu pensei que ele era o único que me entendia. Que podíamos construir alguma coisa. Mas acho que fui só uma tola. Ele riu, sem humor, com uma ironia que quase doía.

— Talvez seja altura de parares de viver para agradar aos outros, Mia. Tens uma vida inteira pela frente e só tens feito uma coisa: tentar ser boa o suficiente para alguém que nunca te deu valor. É isso que queres para o resto da vida? As palavras caíram sobre mim como um balde de água fria.

Nunca tinha pensado nisso. Fiquei presa no olhar dele, a sentir o orgulho a desfazer-se. — Não sabes o quanto tentei — murmurei, com as lágrimas a queimar-me os olhos. — Pensei que o conhecia.

Que tínhamos qualquer coisa real. — Mia, passaste anos a correr atrás de alguém que só te usava para encher o ego. Talvez seja altura de o deixar no passado e seguir em frente. Finalmente percebi.

Estava zangada comigo mesma, por me ter deixado manipular, por ter confiado cegamente em alguém que me tratava como segunda opção. Desta vez, deixei-as cair. — Eu quero mudar — sussurrei, encarando-o. — Quero ser alguém que não precisa de ninguém para se sentir completa.

Quero seguir em frente. Deixar o Ita para trás. Ele sorriu, mas ainda havia ceticismo nos olhos. Inclinou-se e pôs a mão no meu ombro.

— Então começa agora. Prova a ti mesma que consegues. Esquece o Ita. Ele é passado.

Tens de ser fiel a ti mesma antes de qualquer outra coisa. Aquelas palavras, ditas por alguém que sempre estivera em segundo plano na minha vida, tinham um peso surpreendente. Era como se o Daniel sempre tivesse visto algo em mim que eu nunca fora capaz de ver. Sem dizer mais nada, ele ligou o motor e conduziu até ao meu prédio em silêncio.

Quando parou, virei-me para ele. — Obrigada, Daniel. Por tudo. Ele assentiu, e eu vi um brilho de orgulho nos olhos dele antes de voltar a olhar para o volante.

Havia ali qualquer coisa, uma tensão que eu não conseguia identificar. Mas, naquele momento, bastava saber que ele estava ao meu lado. Saí do carro e caminhei para a porta sem olhar para trás. Pela primeira vez, não senti vontade de correr atrás de ninguém.

Ao fechar a porta do apartamento, encostei-me nela e deixei um suspiro escapar. Olhei para aquele espaço vazio que um dia imaginara dividir com o Ita. Aquele futuro já não existia. Deitei-me na cama com a mente a fervilhar.

As palavras do Daniel ecoavam, cada uma com um peso maior do que a anterior. Deixei que a escuridão do quarto me envolvesse e, aos poucos, adormeci. Acordei num lugar que parecia uma mistura de familiaridade e mistério. Sem paredes, sem portas, apenas uma extensão calma e nebulosa.

Uma figura aproximou-se. Não via o rosto, mas a voz era serena e tocava-me a alma. — Mia, encontraste paz. Não porque alguém preencheu um vazio, mas porque alguém que realmente te ama te levou de volta para casa e esteve ao teu lado quando mais precisaste.

Aquelas palavras tocaram algo profundo. Não tinha sido apenas a boleia. Tinha sido a conversa, o olhar atento, a forma como ele me segurara no momento em que eu estava mais perdida. Ele não tentara consertar os meus problemas.

Apenas estivera ali, a desafiar-me a ser mais do que eu acreditava ser. — Amar de verdade não é preencher o espaço de outro — continuou a figura. — Amar de verdade é entender, apoiar e desafiar a pessoa a ser mais do que ela acha que pode ser. Isso é o que o Daniel tem feito.

Ele esteve sempre ali, à espera que te permitisses ver isso. Quando acordei, ainda era madrugada. Levantei-me com uma decisão inabalável. Peguei no casaco, saí de casa e caminhei até ao prédio do Daniel.

Cada passo deixava-me mais segura. Subi as escadas devagar, com o coração a bater mais depressa. Bati à porta. Ele abriu, com uma expressão de surpresa.

— Mia? Olhei para ele com uma intensidade que nunca tinha sentido. — Daniel, eu… Não precisei de dizer mais nada.

Ele pareceu entender. Aproximámo-nos devagar e, antes que a dúvida pudesse crescer, beijei-o. Senti o corpo dele relaxar enquanto retribuía, envolvendo-me nos braços com uma suavidade e uma firmeza que me faziam sentir segura. Aquele era o sítio onde eu devia estar.

Nos dias que se seguiram, começámos a passar cada vez mais tempo juntos. As conversas, antes carregadas de tensão, transformaram-se em intimidade. Passeios no parque, noites de filmes, horas a falar da vida e dos sonhos. Cada segundo com ele mostrava um mundo que eu nunca tinha conhecido.

Não era um amor idealizado. Era real, com imperfeições, mas tão genuíno que eu sabia que podia confiar nele para sempre. Ele não tentava mudar-me. Apenas me incentivava a ser eu mesma.

Foi numa tarde qualquer, num passeio pelo parque, que vimos o Ita ao longe. Estava sozinho, com um ar confuso, talvez arrependido. Quando nos viu, os olhos dele iluminaram-se com surpresa e uma ponta de tristeza. Aproximou-se.

Fiquei em silêncio, à espera. — Mia — começou, hesitante. — Eu tenho pensado. Cometi muitos erros.

Queria saber se ainda podia ter uma oportunidade contigo. Olhei para ele e senti nostalgia e pena. Tinha esperado tanto por aquelas palavras. Agora soavam vazias.

— Agradeço, Ita — disse, calmamente. — Mas agora tenho exatamente quem eu sempre devia ter. E isso é tudo o que preciso. Ele olhou-me com surpresa e resignação.

Talvez finalmente percebesse o que tinha perdido. Baixou o olhar, assentiu e deu um último aceno antes de se ir. Não senti dor. Apenas uma paz tranquila.

Quando voltei o olhar para o Daniel, ele sorriu e apertou a minha mão. Caminhámos juntos, sem pressa, enquanto o sol se punha no horizonte. Naquele momento, soube que finalmente tinha encontrado a felicidade que sempre procurei.