O tablet acendeu na área de trabalho, sem pedir palavra-passe. Era o aparelho errado. A dona Joana, a minha sogra, tinha ido buscá-lo ao quarto do filho para me entregar, mas enganou-se. Em vez do tablet velho que o Amílcar me vendera por duzentos reais, trouxe o tablet de trabalho, com tudo lá dentro.

Antes de eu abrir a loja de aplicações, apareceu uma notificação no cimo do ecrã. Um áudio da Pat. A minha mãe estava ao meu lado, a corrigir provas. Tirou os óculos e leu o nome.
— A Pat da boleia? — A própria. — Vais-me dizer que não tens curiosidade? Tive.
Apertei o play. A voz da Pat saiu manhosa, com um risinho no fim:
— Ao sair daqui, vamos dar um pulinho ao Mac? A resposta do Amílcar chegou logo:
— Vamos. Pensei que já estivesses enjoada do teu lanche preferido.
Fiquei a olhar para o ecrã. A minha mãe falou primeiro:
— Filha, acho que Mac aqui não é McDonald’s. Fui rolando os áudios conversa acima. Só áudios, centenas, nenhuma mensagem escrita.
O primeiro tom estranho tinha dois meses. A voz da Pat, trémula: “Isto não pode continuar. Você tem namorada. Eu sou casada.
” A resposta dele, a rir: “Tens a certeza de que não queres repetir a dose? ” E depois a minha vez. “Não aguento mais aquela mulher. Cheira a bolo e fritura.
Só estou com ela porque a minha mãe quer, porque aquela tonta faz bolos e salgados de graça. ”
Chorei sem fazer barulho, a lágrima a escorrer sem pedir licença. A minha mãe tirou-me o tablet da mão e ouviu o resto em silêncio. Depois disse:
— Este desgraçado.
Ainda bem que a mãe dele fez esta asneira. Foi ali que percebi o quanto eu estava cega. Mas para entenderem até onde, tenho de recuar um ano. Sou doceira.
A minha mãe, a dona Lurdinha, foi professora primária a vida inteira. Criou-me sozinha e cresci entre tigelas de brigadeiro e coxinhas. Quando comecei a ter clientela fixa no bairro, fiz uma entrega grande num escritório de contabilidade do centro. Quem me recebeu foi o Amílcar, rapaz bonito, de camisa social e cabelo com gel.
Ajudou-me a descarregar as caixas, pediu o meu número e uma semana depois estávamos a sair. Levei-o a casa para um almoço de domingo. A minha mãe foi educada até ao fim. Quando ele saiu, fechou a porta e disse:
— Filha, este rapaz não me passa confiança.
Eu ri-me. — Mãe, a senhora falou com ele meia hora. Não devia ter rido. A sogra apareceu logo.
Recebeu o meu bolo de chocolate como quem recebe uma ofensa. “É só este tipo de bolo que fazes? ” Começou a encomendar todas as semanas: bolo de fubá, coxinha, risólis. Nunca pagou um tostão.
Quando fui falar com o Amílcar, ele fez-me sentir culpada:
— É a minha mãe, Jurema. Tens mesmo de cobrar? Eu preferia trabalhar de graça a discutir. Era o preço da paz.
Depois chegou a Pat. Casada, baixinha, simpática. Começou a dar boleia ao Amílcar e ele chegava a casa mais cedo, mais aliviado. Eu não desconfiei.
Até ao dia em que a dona Joana, ao entregar-me o tablet, se enganou. Foi a única coisa útil que ela me fez na vida. Naquela noite, em vez de continuar a chorar, a minha mãe contou-me a história de uma professora chamada Glorinha, que tinha sido humilhada com um carro de som à porta da escola. “Carro de som é presente de inimigo.
” Ficámos as duas a olhar uma para a outra. O plano nasceu ali. Salvei todos os áudios para o meu e-mail, limpei o histórico e desliguei o aparelho. Às sete e meia da noite, o Amílcar tocou à campainha, a transpirar.
— Amor, ainda não usaste o tablet? A minha mãe deu-te o errado. É o do trabalho. Preciso de o trocar já.
Entreguei-lhe com um sorriso. Ele abriu, verificou, respirou de alívio e entrou no Uber. Fechei a porta e fui sentar-me à mesa da cozinha com a minha mãe. O plano começava ali.
Liguei para as empresas de carros de mensagem da cidade. As duas primeiras recusaram. A terceira, depois de um silêncio, começou a rir:
— Aqui fazemos tudo pelo cliente. Pagando bem, que mal tem?
Contratei tudo para sexta-feira, dia dos namorados, às seis em ponto, em frente ao escritório. Com Fusca cor-de-rosa, balões, música brega no máximo, fotografia do homenageado, filmagem e fogos de faísca. Depois liguei à dona Joana, com a voz mais doce que consegui:
— Dona Joana, vou fazer uma homenagem linda ao Amílcar na frente do escritório. Queria muito que a senhora estivesse lá.
Depois vamos jantar, eu pago, uma churrascaria. — Querida, que surpresa maravilhosa! A que horas? — Às cinco e quarenta e cinco.
Mas não diga nada a ele, é surpresa. — Pode deixar, querida. No dia seguinte, contei à minha mãe:
— Foi só falar na churrascaria que ela aceitou. Rimos as duas.
Na sexta, estacionámos do outro lado da rua, em frente ao escritório. A dona Joana chegou de verde-limão, perfumada, parecia que ia para uma festa. Ao lado dela ficou uma senhora da igreja, a Creusa, que também queria ver a homenagem. Às seis em ponto, ouviu-se a música ao longe.
Um Fusca cor-de-rosa virou a esquina, cheio de balões, com uma fotografia enorme do Amílcar de boca aberta, a mastigar. A locutora abriu a porta e gritou:
— Onde está o Amílcar? Ele saiu do escritório ao lado da Pat, os dois confusos. A dona Joana atravessou a rua num impulso e abraçou o filho.
Foi nesse momento que vi o Tiago, o marido da Pat, chegar de Uber, com um buquê na mão. Em vez de atravessar, encostou-se à calçada, cruzou os braços e ficou ali. A locutora começou a ler o meu roteiro. “A sua namorada diz que você é um homem muito engraçado, ótimo colega, ótimo filho.
” E depois, um por um, tocaram os áudios. A imitação do Dr. Otávio, a quem ele chamava Dr. Otário.
Os nomes feios a todos os colegas. A conversa sobre o Mac. A Pat a dizer que só continuava com o Tiago porque ele pagava tudo. O Amílcar a dizer que só estava comigo porque a mãe queria que os bolos continuassem.
O Dr. Otávio estava a dois metros, de braços cruzados. Os colegas tinham deixado de rir. A dona Joana largou o filho devagar, como quem larga uma brasa.
A Creusa, ao meu lado, sussurrou:
— Então era você que fazia os bolos? E a Joana dizia que comprava na padaria chique e fazia-nos pagar o rateio! A minha mãe soltou uma risada seca. Eu acenei para o Amílcar com um sorriso de orelha a orelha.
A locutora levantou a mão e finalizou:
— E para terminar, uma mensagem da sua homenageante: vai para o quinto dos infernos, seu babaca. Está acabado. Acenderam os fogos de faísca à volta dele. A locutora entregou-lhe a fotografia dele a mastigar, pôs-lhe um cartão de visita na outra mão e entrou no Fusca.
A música arrancou. O carro afastou-se. O Tiago pousou o buquê em cima de um capot, virou costas e foi andando. A Pat correu atrás dele, aos gritos.
Os colegas fecharam uma roda à volta do Amílcar, a apontar e a gritar. No meio, a dona Joana, com a mala no ar, dava golpes para todo o lado. Viemos embora em silêncio, mas a sorrir. No sábado, chegou o vídeo do cinegrafista.
Vimo-lo duas vezes, com pipoca, a chorar a rir. Depois chegaram os áudios. O Amílcar, aos gritos: “Arruinaste a minha vida! Vou contar à cidade que metes cabelo nas coxinhas!
” A dona Joana, venenosa: “Vou dizer que a tua comida me deu intoxicação alimentar. Nunca mais vendes um bolo nesta cidade. ”
A minha mãe encolheu os ombros. — Então é melhor que a cidade saiba a verdade primeiro.
No domingo, filmei-me na cozinha a fazer coxinhas e bolo de cenoura. Por cima das imagens, contei a história toda em três partes. Postei no canal Doces Lembranças com Juju. Em vinte e quatro horas, duzentas mil visualizações e doze mil seguidores.
O vídeo da homenagem também se espalhou, e o Fusca cor-de-rosa ficou conhecido como o carro da discórdia. Na terça, a Creusa ligou a encomendar um bolo de fubá e coxinhas. Depois veio à loja e contou o resto. A dona Joana tinha sido cercada na igreja pelas irmãs que descobriram que pagavam caro pelos bolos que eu fazia de graça.
O Dr. Otávio despediu o Amílcar e a Pat por justa causa, sem direito a indemnização. A Pat pediu para morar com o Amílcar, e ele respondeu: “A minha mãe não deixava. ” Até na queda se portaram à altura.
Seis meses depois, a minha mãe batia o ponto pela última vez. Com as poupanças e o lucro do canal, abrimos a confeitaria na rua principal do bairro. Na inauguração, a fila chegava à esquina. A Creusa foi a primeira cliente e tornou-se amiga.
Foi ela quem contou que a dona Joana tinha vendido a casa e levado o filho para uma cidade no interior. O Tiago estava a namorar uma mulher decente. A Pat tinha voltado para casa dos pais. Numa tarde, já com a loja aberta, mostrei à minha mãe um vídeo de uma mulher em Curitiba que tinha exposto o marido com o mesmo Fusca cor-de-rosa.
Milhões de visualizações. Ela olhou para o ecrã, sorriu, deu um gole no café. — Se isto tivesse existido no meu tempo, a Glorinha tinha ficado fula da vida. Fiquei com a coxinha no ar.
— Mãe. Foi a senhora? Ela deu uma risada, levantou-se e foi para o balcão, sem responder.
Eu fiquei a olhar para a porta, a abanar a cabeça, a sorrir.


