A papa tinha amendoim. A Mariana levou-a da minha cozinha sem eu saber, e o filho dela morreu sufocado, com a garganta inchada. Na dor e na raiva, ela atirou-se a mim e tirou-me a vida. Quando voltei a abrir os olhos, estava no dia em que dei à luz.

O Eduardo acabava de entrar com um saco na mão, e a Mariana já vasculhava o meu quarto. Fazia dez minutos que eu tinha morrido pelas mãos dela. Éramos as duas grávidas ao mesmo tempo. A minha sogra dizia que era uma bênção dupla; só ao reviver é que percebi que ali começavam os problemas.
A Mariana pegava no que queria das minhas coisas e eu deixava, porque tinha um coração mole. Aconselhei-a uma vez, disse-lhe que cada bebé é único e exige cuidados individuais. Ela riu-se, chamou-me mesquinha, e continuou a levar tudo. Naquela manhã, o que ela queria era o óleo de gravidez.
— Raquel, vamos, ajuda-me a procurar. Revolvia as minhas coisas como se estivesse na casa dela. As unhas cravaram-se nas palmas das mãos enquanto eu tentava manter a calma na voz. — Acabou, Mariana.
Se quiseres, mando-te o link para comprares. Ela parou e olhou-me, claramente insatisfeita. — Eu só estava a ver se tinhas um a mais, por segurança. Somos família, porque é que fazes tanto alarido?
Além disso, tu já compraste. Porque é que eu havia de gastar dinheiro noutro? Isso era um desperdício. Era sempre aquela desculpa: estava a ajudar-me.
Mas quando alguma coisa corria mal, não hesitava em tirar-me a vida. Desta vez, eu não ia deixar. — Como disse, acabou. Acho que as minhas estrias melhoraram, por isso não vou comprar outro.
O rosto da Mariana mudou. — Se tu não compras mais, do que é que eu vou usar? Certamente o Eduardo não está assim tão apertado de dinheiro. Fingi surpresa.
— Porque não compras tu? Não foi na semana passada que o Ricardo comprou um carro novo? Ele deve poder comprar uma garrafa de óleo. Ela ficou sem graça, mas recuperou depressa, com um tom superior.
— O meu marido pode comprar um carro porque eu sou económica e poupo. Ao contrário de ti, que gastas mais de quinhentos euros num frasco de óleo. Percebi então: pegar nas minhas coisas era a maneira que ela tinha de poupar. Foi nesse momento que o Eduardo saiu da casa de banho e entrou no quarto.
Ignorou a Mariana, beijou-me a testa e entregou-me o saco. — Tens trabalhado muito, amor. Vi ontem que ficaste sem óleo, passei no centro comercial depois do trabalho e comprei-te outro. Depois ajudo-te a explicar isto.
Os olhos encheram-se-me de lágrimas. O Eduardo nunca concordou que a Mariana levasse as minhas coisas; era eu que tinha um coração mole demais para recusar. Por isso, ele começou a comprar tudo a dobrar, para eu nunca ficar sem nada. Quando se esquecia, a Mariana atacava com comentários sarcásticos, acusava-o de não ter sentido de responsabilidade, dizia que a culpa era dele se as duas famílias ficavam sem nada.
O Eduardo era um homem reservado, nunca discutiria com uma mulher, muito menos falaria mal do próprio irmão. Mas eu não ia deixar que as coisas chegassem a esse ponto outra vez. A Mariana olhava para o saco como se tivesse direito a ele. — Ah, compraste outro.
O Eduardo é tão atencioso, sempre a gastar dinheiro contigo. Deixa-me ajudar-te a abrir. Avançou para mim, mas tapei o saco com as mãos. — Na verdade, isto é um presente para um cliente importante do Eduardo.
A mulher do cliente está grávida, e ele fechou um contrato grande com esse cliente. É um favor pessoal. — Pisquei para o Eduardo. — Não é, amor?
Ele percebeu logo. — Exatamente. Cheguei à meta do trimestre graças a esse cliente. A Mariana franziu o sobrolho.
— Que coincidência. Quando te peço uma coisa emprestada, dizes que é um presente. Não estarás a tentar evitar emprestar-ma? Levantei o tom de voz, sem perder a calma.
— Mariana, como é que podes pensar isso de mim? Quando é que te neguei alguma coisa? Que tal isto: dou-te este frasco de óleo, e se o Eduardo não bater a meta no próximo trimestre e não receber o bónus, pedimos um empréstimo ao Ricardo para pagar a prestação da casa. O que achas?
Ela retirou a mão num instante. — Esquece. Eu não sou do tipo que se aproveita dos outros. E saiu apressada, como se tivéssemos ido pedir o empréstimo ali mesmo.
Quando a porta da frente bateu, soltei um suspiro de alívio. Mas afastá-la uma vez não significava livrar-me dela para sempre. Com as hormonas da gravidez, comecei a ter pesadelos constantes. O medo de morrer apunhalada, como na vida anterior, era uma sombra que me seguia todas as noites.
Acordei a chorar, com o suor frio a escorrer-me pelo corpo. O Eduardo acendeu o candeeiro e apertou-me contra ele. Contei-lhe tudo sobre a minha vida anterior. Ele acariciou-me as costas e não me interrompeu.
Chorei muito tempo até conseguir levantar a cabeça. — Acreditas em mim? Ele enxugou-me a testa. — A filial da Cidade do Sol mandou várias propostas de transferência.
Recusei-as porque não queria que viajasses grávida. Mas, já que é assim, vamos mudar-nos. No dia seguinte, a Mariana apareceu cedo, a bater à porta. Abri ainda a dormir.
— Dá-me as chaves do carro. O meu irmão quer fazer uma viagem. Ah, e o depósito está cheio, não está? Fiquei a olhar para ela.
Na vida anterior, tinha-lhe emprestado o carro — um presente de casamento da minha família. Ela exigiu o depósito cheio e ainda me pediu dinheiro para a gasolina, ameaçando abandonar o carro na estrada se eu não desse. Quando o irmão voltou, o carro estava imundo, com os bancos danificados. A Mariana desapareceu e nunca falou em compensação.
— Não foi o Ricardo que comprou um carro novo? O carro do meu marido é caro demais para uma viagem longa. O vosso é mais simples e perfeito para isso. Vocês têm carro próprio.
Ela ficou paralisada. — Não te posso emprestar. Vou vender o carro no stand amanhã. — Vender o carro?
— a voz dela subiu. — Porquê? — A economia não está boa, os nossos rendimentos caíram. Quero ajudar a aliviar as despesas.
Ela saiu a bater com a porta. Senti um alívio momentâneo, mas sabia que a Mariana não desistia assim tão facilmente. Enquanto vivêssemos na mesma cidade, enquanto o Eduardo continuasse a ser generoso e paciente, ela ia encontrar maneira de se aproveitar. Eu precisava de um plano.
Entretanto, fui reparando em coisas que me tinham escapado na vida anterior. A Mariana não se limitava a levar o que queria; também plantava mentiras no nosso círculo. Uma conhecida comentou comigo, casualmente, que a Mariana dizia que eu era preguiçosa demais para trabalhar e que o Eduardo fazia tudo por mim. Fiquei furiosa.
Contei ao Eduardo, mas ele apenas suspirou. — Amor, estamos de mudança. Ela não vai poder incomodar-nos. Eu sabia que fugir não resolvia.
A Mariana era do tipo que encontrava maneira de nos atingir mesmo à distância. Decidi enfrentá-la — não com gritos, não com brigas, mas com algo mais eficaz: expô-la. A oportunidade apareceu no dia seguinte, em casa da minha sogra, onde estávamos a arrumar umas coisas antes da mudança. A Mariana entrou com a sua atitude mandona e apontou para os objetos de decoração no sótão.
— Tu nem usas estas coisas, Raquel. Vou levá-las para decorar o meu apartamento. A minha sogra sorriu, como se aquilo fosse perfeitamente normal. Mas eu já não ia recuar.
— Mariana, essas coisas são minhas e eu planeio levá-las para a casa nova. Se precisas de alguma coisa, compra ou pede a outra pessoa. Ela olhou-me espantada, depois soltou uma risada de escárnio. — Achas mesmo que vais viver para sempre nessa bolha de perfeição?
O Eduardo pode fingir que não se importa, mas toda a gente sabe que só te atura porque está preso neste casamento. A minha sogra ficou sem palavras. Foi nesse momento que o Eduardo entrou na sala, ouvindo o suficiente para perceber o tom da conversa. Mas eu adiantei-me, com uma calma que não sabia que tinha.
— Já que estamos a pôr tudo em cima da mesa, deixa-me perguntar-te uma coisa: quem é que está mesmo preso aqui? Tu não consegues viver sem rondar a nossa casa, os nossos pertences, a nossa vida. Talvez o problema não seja o meu casamento, mas sim a tua incapacidade de seguir com a tua própria vida. A Mariana ficou desconcertada, mas tentou manter a superioridade.
— Eu só estou a tentar ajudar-vos a ser menos mesquinhos. Desta vez, o Eduardo não se calou. — Chega, Mariana. Não é a tua função decidir o que fazemos com as nossas coisas nem com as nossas vidas.
Passaste anos a tentar manipular-nos e estou cansado. A Raquel e eu vamos mudar-nos. Seria bom que respeitasses isso. — Vocês vão arrepender-se de me tratar assim.
Somos família, e famílias têm de ajudar umas às outras. E saiu a bater com a porta. Mas ainda não tinha acabado. Quando estávamos a empacotar as últimas caixas, uma amiga que conhecia a Mariana mandou-me uma mensagem: a Mariana tinha publicado nas redes sociais que nós estávamos a fugir da cidade porque não conseguíamos pagar as contas.
Dizia ainda que o Eduardo estava endividado por causa do meu estilo de vida esbanjador. Isso fez-me mudar de estratégia. Deixei de a confrontar diretamente e comecei a reunir provas — mensagens, comentários, tudo o que mostrasse quem a Mariana era de verdade. Organizei um jantar com a família antes da mudança e convidei toda a gente, inclusive ela.
Durante o jantar, mencionei as mentiras que andava a espalhar e pedi-lhe que explicasse as suas preocupações a todos. Ela ficou vermelha, tentou negar. Mostrei as mensagens na frente de todos. A Mariana perdeu o controlo completamente, acusou-me de ser uma calculista.
Mas já não importava. Naquela noite, ficou isolada. Ninguém na família queria emprestar-lhe nada, ninguém lhe confiava. O Eduardo e eu mudámos de número de telefone e deixámos claro a todos que queríamos distância.
Não foi fácil reconstruir a paz. Mas, pela primeira vez em anos, senti que estávamos livres daquela sombra. Mudámo-nos para uma cidade tranquila. O Eduardo conseguiu uma promoção importante e construímos uma casa nova — um lar que a Mariana nunca visitaria.
O nosso casamento fortaleceu-se porque desapareceu o peso de lidar com ela; foi como tirar uma pedra que carregávamos há muito. Da Mariana, fui sabendo por conhecidos. Depois de exposta naquela noite, a reputação dela ficou manchada. As pessoas deixaram de lhe emprestar, de lhe fazer favores.
Vendeu o carro para pagar dívidas, depois perdeu o apartamento. Dizem que vive agora num pequeno arrendamento nos arredores, a fazer biscates para se sustentar. O irmão, que tantas vezes lhe servira de desculpa, cortou relações com ela depois de uma briga feia. A minha sogra, que sempre fora permissiva, passou a vê-la como uma vergonha.
A Mariana ficou sozinha, sem aliados, sem recursos. Sou feliz, mas não vou mentir: guardo ressentimento. Ela tirou-me anos de vida, envenenou o meu círculo social, tentou destruir a minha paz. Na vida anterior, foi responsável pela minha morte.
Não esqueço, e não desejo que ela encontre paz. Quero que continue a carregar o peso daquilo que fez. No fim, a Mariana teve exatamente aquilo que merecia: a solidão.
Pessoas como ela não mudam; só encontram limites quando o mundo finalmente lhes vira as costas.


